[Resenha] Vício Inerente – Thomas Pynchon

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Representante do informal Clube de Autores Reclusos, Thomas Pynchon evita aparições públicas e o assédio de repórteres. Em 1997, quando foi filmado pela CNN, barganhou as imagens por uma entrevista exclusiva para o canal. Os retratos conhecidos do autor são de sua adolescência, representando um rosto jovial, tipicamente americano, com destacados dentes frontais.

Vencedor do Prêmio Faulkner por V, do National Book Awards por Arco-Íris da Gravidade e outros prêmios de prestígios, suas obras são comumente extensas, apresentando excesso de personagens e situações em uma narrativa erudita que faz referência a diversos campos científicos. Estruturalmente, não se prende a usos normativos das palavras e recria vocábulos quando necessário. Não a toa, o crítico Harold Bloom considera sua prosa canônica entre os escritos contemporâneos americanos.

Publicado originalmente em 2009 e lançado no país no ano seguinte pela Companhia das Letras, Vício Inerente retorna à atmosfera paranoica dos 70 e estabelece uma homenagem aos mestres da literatura policial americana, Raymond Chandler e Dashiell Hammett, em um romance que se estrutura na narrativa policial mas se insere na atmosfera pós-hippie.

O principal enfoque da obra é a maneira como o estilo do escritor conduz a trama e compõe a personagem central, o detetive Larry “Doc” Sportello, que reaparece neste romance após protagonizar Vineland e O Leilão do Lote 49. Produto do flower power da década dos anos 60, Doc é um hippie que vive de maneira modesta na cidade e representa uma cultura em decadência. Consumindo drogas freneticamente, sua personificação foge do estereótipo do detetive, sem nenhum simbolismo representativo de investigadores tradicionais.

Pynchon faz de Doc uma paródia do policial. Se detetives usam a experiência e um certo instinto para prosseguir na investigação de casos, seu método investigativo permanece a maior parte do tempo alheio devido ao uso constante das drogas. Uma paranoia intensa compartilhada pelo público que acompanha a história a partir do ponto de vista da personagem, e que também permanece em dúvida sobre o que é real ou não dentre os absurdos em cena. Diluindo a realidade entre usos maciços de drogas e alucinógenos, a trama produz os mistérios naturais de uma história policial, e conduz o leitor a compartilhar as experiências de Doc por meio do trânsito que alterna o real e a divagação.

O estilo narrativo se equilibra entre preciosismos e uma falta sensação de simplicidade. O autor abusa do fluxo constante de pensamentos e de construções neologistas para dar ritmo aos pensamentos frenéticos de sua personagem. Ao mesmo tempo, estrutura a história de maneira simples, gerando um choque entre a não-linearidade dos fatos, passando pelo real e o onírico e uma trama de investigação aparentemente usual.

Por essas características, traduzir o autor e manter seu estilo com as construções gramaticais são um desafio. Coube a Caetano W. Galindo – que verteria depois Ulysses de James Joyce e Graça Infinita de David Foster Wallace – trabalhar com a obra à procura de equivalentes que mantivessem o estilo do escritor e a oralidade das personagens, para que pouco se perdesse na tradução. O trabalho é bem realizado, sendo perceptíveis as tensões entre o preciosismo de Pynchon como narrador em contraponto às falas simples das figuras que ele retrata na obra.

O autor inova ao inserir uma estrutura narrativa em outro contexto e produz uma obra que destaca sua qualidade como escritor, ao mesmo tempo que se volta a um momento específico de décadas passadas. Vício Inerente é uma espécie de jornada transitiva entre estados da mente compartilhada coletivamente.

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