Resenha | A Perpetuação da Espécie – Fernando Andrade

A Perpetuação da Espécie (Editora Penalux), do escritor e crítico literário Fernando Andrade, molda e reconstrói, com seus poemas, o Homem e sua descendência. Com uma poesia íntima e plena de construções, jogos verbais e metáforas, o poeta explora a própria gênese do Homem enquanto carne e mito de si mesmo. A poesia funciona como microscópio e filosofia em Fernando Andrade e o resultado é um livro singular e forte, que, a despeito de suas 66 páginas, impacta e assombra, porque pensar sobre nós mesmos sempre traz arrepios do desconhecido.

Dividido em 5 partes (nascimento, infância, lembranças, imagens e gênero), o livro explora poeticamente as fases do humano, da ideia à morte, passando pela infância, gênero, memória, sexo, tanto nos campos físicos quanto abstratos da espécie. Versos sem forma fixa, desconectados formalmente da tradição clássica, mas construídos para facilitar alguns enjambement (quando um verso pode ser lido complementando o verso posterior) que o autor gosta de usar, a poética do autor (este é seu quarto livro solo), é atual e com forte apelo à tradição oral da poesia.

Assim, em seu novo trabalho, o que encontramos são poemas maduros, concisos e bem amarrados com o tema central do livro. E, dentre os 37 poemas da obra, destaco dois subtemas muito bem trabalhados no diálogo de Fernando Andrade com o Humano. O primeiro deles é o Tempo. O autor trabalha poeticamente o espaço cronológico entre o nascimento e a morte como um lembrete. Voltaremos ao pó primordial, então, o que fazer com o Tempo que nos resta? “Minuto a Minuto / O tempo acomoda / Um personagem / De hora em hora / Incorpora sua / Memória / (…) Pergunto às moiras / o livre arbítrio / É uma ampulheta cheia ou vazia?” São os versos de “Clepsidra”.

Outro subtema que perpassa as linhas de “A perpetuação da espécie”, é a Política enquanto natural ao corpo, um Corpo Político. “Pequena e diminuta Revolução / – Todas as suas ações serão provisórias / Até serem reescritas ou revogadas. / Nada em tom indefinido será admitido.” São os versos de “Trecho em ironia”. E se a Política é natural ao corpo, quer dizer que a maçã do Éden era então uma fruta política? Talvez o poeta responda.

Por fim, o tom amarelo puxando ao barro que compõe o livro dá uma dica de que Andrade trabalha a olaria poética do Humano. Surgindo do barro, como nas escrituras, e voltando ao pó, o poeta suja a forma da poesia com versos que olham dentro de nós mesmos; versos como microscópio e poema como tese sobre homens e mulheres. Reflexivo e metafórico, A Perpetuação da Espécie é uma ótima indicação de poesia singular e contundente.

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