Resenha | A Tormenta de Espadas – George R.R. Martin

A Tormenta de Espadas

Continuando na onda “mainstream”, agora é a vez do terceiro livro de Guerra dos Tronos. Não li outras resenhas sobre esse livro em particular, mas li de seus predecessores e pretendo fazer algo um pouco diferente ao resenhá-lo. Como introdução, direi aqui que tenho grande consideração por esse livro (e por essa série) e acho que é uma das melhores obras de fantasia que existe ou que haverá de existir. Portanto, minhas críticas aqui não são necessariamente algo que eu odeio do fundo de minha alma. São apenas alguns aspectos que eu achei interessante compartilhar.

Devo, antes de qualquer coisa, dizer que não pretendo fazer uma análise passional sobre o quão incrível a história que George R.R. Martin criou é, e tampouco tentar dizer o quão boa essa obra é tentando me desviar dos (milhares) spoilers que há nas 840 páginas desse livro. Não irei fazer uma comparação com Tolkien (pelo menos não nos aspectos que já tenha visto alguém fazer) e nem me aprofundar nos aspectos mais profundos daquilo que foi lido. Irei apenas colocar os pontos positivos e negativos, sendo que não acho que isso vai ser uma tarefa fácil, uma vez que Martin é muito bom em gerar sentimentos contraditórios, mas igualmente formes.

Quero começar falando sobre as quatro estrelas que o livro recebeu, pois tenho certeza que, dentre os que já li de As Crônicas de Gelo e Fogo, esse definitivamente seria um grande merecedor de cinco estrelas, se não fosse por uma coisa simples: a maneira que a história é contada. Muitas foram as resenhas que eu vi que ou reclamam dos pontos de vistas ou então os admiram fervorosamente. Eu talvez esteja em um meio termo, mas isso é algo para ser dito mais pra frente. Afinal, não era disso que eu estava falando quando disse “a maneira que a história está sendo contada”.

Para falar a verdade, a série toda só não está entre os meus favoritos (up and beyond) porque o Martin escreve uma história impecável e perfeitamente. Talvez isso seja contraditório, sim, mas vou explicar um pouco mais o que quis dizer. Quando você começa (eu, pelo menos, quando comecei), é capaz de sentir o potencial na veia, e isso te empolga e te leva a seguir adiante, pois a narrativa utilizada foi feita para te fazer continuar lendo e devorar suas páginas. Ele não enrola, não se perde em coisas “desnecessárias” e também não fica nos fazendo engolir a mesma coisa várias e várias vezes. Se tivesse que fazer uma comparação infame, enquanto Martin está para Stannis assim como Tolkien está para Renly, e não estou falando na viadagem.

Enquanto Tolkien procurava nos afundar em sua fantasia e seu universo fantástico de supetão, várias vezes com descrições gigantes (mas nem por isso inadequadas) e histórias já passadas, Martin nos guia lentamente pelo universo que criou a partir daquilo que acontece com os personagens que nele vivem. Seria como se não fosse a história de como a Comitiva do Anel seguiu para seu destino incerto ou então como Frodo destruiu o anel, mas sim tudo que aconteceu com a Terra-Média para chegar naquele ponto em que o jovem Hobbit saía do Condado.

Não estou dizendo que isso faz com que a maneira que Martin conta a história seja ruim – pelo contrário, é muito boa -, mas essa maneira direta faz com que, pelo menos para mim, isso pareça impessoal demais, com uma frieza incontestável nas palavras que narram tudo aquilo que acontece (veja bem, não quando se trata dos personagens e daquilo que eles sentem, mas sim do próprio autor). Seja com Philip Pullman com sua bússola de ouro e a visão da natureza humana com toques infanto juvenis ou então de Lemony Snicket, com sua narrativa agridoce repleta de verdades amargas ou até mesmo de J.K. Rowling, que nos faz acompanhar praticamente uma vida inteira de alguém que é um sobrevivente a partir do primeiro momento.

Mas, sim, a história é narrada a partir dos pontos de vistas dos personagens, então onde haveria de ter espaço para a presença onisciente e onipresente de Martin nisso tudo? Não sei e não tenho competência para começar a afirmar onde que ele poderia colocar um pedacinho de sua própria natureza ou então de outro aspecto de sua personalidade com fragmentos expressivamente seus, independente dos personagens, durante a escrita. Talvez soe meio estranho, mas para um livro ser meu favorito, ele não precisa contar a história “perfeita e diretamente”, mas sim me inspirar muito além daquilo que acontece, me levando através das entrelinhas daquilo que foi contado.

Agora, sempre tive um problema muito grande em pensar demais nas coisas, e imagino que talvez o que eu tenha escrito aqui não faça sentido para você e, nesse caso, você provavelmente deve ter visto muito mais na narrativa do que eu. Pensando nisso, fiquei matutando e pensando que, talvez, muito além daquilo que lemos, o que nos influencia a gostar de um livro é o momento em que estamos na nossa vida. J.K. Rowling, por exemplo, pode ser uma das minhas autoras favoritas porque eu cresci lendo Harry Potter (e junto com ele, também). Ou então Philip Pullman, que foi aquilo que eu li entre os lançamentos de HP e estava sendo apenas introduzido aos mundos fantásticos e, naquele momento, tudo era mágico demais e perfeito demais e agora, com o tempo e vários livros entre o Harry Potter e A Tormenta de Espadas, minhas percepções estejam completamente diferentes.

Bem, agora que já me perdi com justificativas e apontando a minha visão “geral” do livro, vamos aos pontos menos pessoais. Não sei se sou o único, mas detesto os prólogos de Martin, por algum motivo que não tenho certeza de qual é. Isso, é claro, de longe não é algo tão relevante quanto achar que a história é uma porcaria. Está mais para um detalhe incômodo do que qualquer outra coisa. Porém, seus epílogos – em comparação – são excelentes e mal vejo a hora de começar o quarto livro (por mais que tenha alguns livros no meio).

Outro hábito que muitas vezes me incomoda é sua maneira de tentar colocar um “gancho” toda vez que termina um ponto de vista. Muitas vezes ele faz o trabalho perfeitamente, como quando aquilo aconteceu com aquele leãozinho ou então The Rains of Castamere em sua melodia que para mim se tornou rubra. No entanto, em alguns outros esses ganchos parecem forçados, principalmente quando se trata de Cat, que muitas vezes a fazem parecer completamente louca ou desesperada (o que talvez ela esteja, mas me pareceu meio artificial), ou então em alguns determinados momentos com Arya, Sansa ou Tyrion, que pareceram um pouco desnecessários. Novamente, nada muito gritante na minha opinião e não desmerece a obra.

Porém, preciso admitir que nesse livro eu demorei para pegar o ritmo. Sempre tive alguns problemas com grandes expectativas e a formação de uma tempestade ao longe, e pelas primeiras 400 páginas eu tive a sensação de que as nuvens estavam se formando, mas por mais que coisas empolgantes acontecessem, não eram algo que me fizesse ler com aquela voracidade desesperadora. Isso, no entanto, acaba após aquilo e somos obrigados a ler sem querer parar. Não muda o fato de que quase metade do livro não foi tão empolgante quanto o resto, mas ainda assim não posso dizer que a primeira parte foi ruim. Cansativa, sim, mas não ruim.

Eu podia dizer agora sobre os pontos positivos, a maneira épica que Martin orquestrou todos os acontecimentos com antecedência para gerar sentimentos conflitantes, gritantes e desesperadores, ou então a própria história em si, sua magia sutil que cresce gradativamente ou talvez do quão empolgante toda aquela maquete de tramas e, claro, Dany e seus dragões. Porém, acho que todo mundo que já leu já sabe disso tudo e existem muitas outras resenhas que irão dissecar o livro e seus melhores aspectos muito melhor do que eu.

Para finalizar, deixo aqui a sugestão para que leiam os livros e acompanhem o seriado. Independente de suas opiniões a princípio, dos julgamentos que você provavelmente tem ou talvez de sua alma hipster que não vai querer seguir algo tão mainstream quanto As Crônicas de Gelo e Fogo. Leia, porque nessa série há tudo para todos os gostos e personagens tão épicos quanto podem ser, sendo uma referência para todos aqueles que querem ver o quanto um universo fantástico pode evoluir.

Texto de autoria de Thiago Suniga.