[Resenha] As Horas – Alex Andrade

Livro para dias chuvosos

A Literatura é um universo paralelo ao nosso. Não por acaso, a boa escrita tem esse poder magnífico de nos transportar a outra versão de mundo, com situações que alteram o humor de quem o lê. As Horas (2016, Editora Penalux), do escritor Alex Andrade, é um desses livros que nos inundam com uma carga emocional potente ao longo das páginas.

A meu ver, os treze contos de As Horas, orbitam entre melancolia, raiva e ingenuidade. Talvez não sejam as emoções mais cômodas a qualquer leitor, mas a leitura do conjunto cumpre expressivamente uma das funções mais importantes da literatura: o desenvolvimento da empatia. Ou seja, Andrade encadeia de tal forma os contos que somos fisgados pelas situações dos personagens e nos colocamos no lugar deles. A inversão nos faz experimentar as mesmas emoções, e somos pegos, desprevenidamente, pela pergunta capciosa: “Eu faria algo diferente?” Essa simples pergunta transmutada em escrita já eleva a reflexão sobre todos os contos do autor.

Em termos de técnica, Alex demonstra experiência. Notamos claramente que ele tem domínio de uma voz própria na escrita (algo raro entre os escritores), com preferência por períodos longos, pouquíssimos diálogos (ao menos nos contos selecionados para o livro), tempo retardado, e recorrentes fluxos de consciência entre os (quase maioria) narradores em primeira pessoa.

Contudo, senti falta de certa ousadia com o não dito para incrementar a fidelidade dos contos. Explico: a utilização de períodos longos, que por vezes se confundem com o fluxo de consciência ou o fluxo das ações dos personagens, diz muito sobre a cena e entrega facilmente ao leitor uma conclusão ou um estado de espírito que permeia as situações abordadas.  Faltou, portanto, o não dito ou a descrição do momento sem a interferência do narrador, para que o leitor também possa tirar uma própria conclusão sem sofrer a interferência de outros. É a regra do “Narre, não conte”, da escrita.

Outros pontos poderiam incrementar a experiência de leitura: em vez de optar pelos períodos maiores, alternar com mais frequência trechos curtos e longos a fim de imprimir um ritmo mais harmônico de leitura; em alguns contos, as personagens não ficaram tão nítidas porque não houve diálogo que os diferenciasse, pois a falta de dialogismo nivela com opacidade todos os integrantes do conto para, mais uma vez, ficarmos reféns da análise do narrador; alguns contos que exploraram a melancolia pareciam histórias de diferentes fases de um mesmo personagem, ou seja, senti falta de individualidade entre os narradores.

Dos treze contos, “A menina nua” é o melhor. Supera a amplitude dos outros contos com originalidade e adiciona períodos não ditos que enriquecem a interpretação do leitor. Por fim, As Horas é um livro para ser lido com cuidado porque carrega esse poder de exercitar a empatia de cada um; exige silêncios, trás reflexões. Livro para ser lido em dias de chuva.

 

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