Resenha | As Memórias do Livro – Geraldine Brooks

O título acima serve a fundamentos literários pouco lembrados e muito menos difundidos na nossa contemporaneidade obtusa. Atua, sobretudo, como valioso e divertido lembrete prático de que nenhuma história, real ou não, possui apenas um lado de se contar, ou se apoia em apenas um ponto de vista para se desdobrar rumo a um clímax satisfatório – como não pode deixar de ser o caso, aqui. É justamente nessa falta de unilateralidade, que aprofunda e deixa qualquer escrita ampla e primorosa, baseando-se em fatos e passagens ficcionais (ou não), que a escritora vencedora do Pulitzer, a americana Geraldine Brooks, sensivelmente converte ambiguidades delirantes em forma de romance realista. Isso porque As Memórias do Livro, título clichê que certamente afasta boa parte dos leitores em potencial, certamente caminha nessa tênue faixa que promove a distração entre o verídico e o inventivo; um verdadeiro contraponto às inúmeras obras surreais de investigação cujo único propósito é entreter usando meia dúzia de verdades prontas.

Em certo momento, lá pelo meio do livro em questão, somos todos convidados a refletir sobre o modelo de vida que um professor, cientista, historiador, enfim, que um agente da realidade leva (e participa) graças a profissão na qual devota seu tempo e energia muitas vezes sacrificando suas relações, em prol de um objetivo, muitas vezes, atemporal, e ainda muito maior que sua mera vida pessoal. No tocante a nossa protagonista aqui, a jovem e muito competente restauradora literária Hanna Heath, temos uma persona tão devotada a seu ofício com as obras antigas que chegam em suas mãos profissionais quanto, afinal, a sua própria escritora laureada, e assim, de supetão, como num sonho da autora travestido numa trama de ficção, Hanna fica envolvida com a oportunidade de restaurar e analisar uma das obras mais raras e misteriosas da Terra: O sobrevivente livro Hagadá.

– […] Já tivemos livros queimados demais nesta cidade.

– Livros demais queimados no mundo.

Um diamante inestimável, e que abriga uma narrativa compilada acerca da saída dos judeus do Egito, incluindo sermões judaicos, canções e trechos milenares do Antigo Testamento. Valiosíssimo como deve ser, Hanna não perde tempo algum e aceita a responsabilidade exclusiva de se ver diante de séculos de informação organizada num manuscrito quase destruído por conflitos e bombardeios históricos, cuidando, restaurando e investigando os pormenores de uma joia literária neste que pode, muito bem, ser o trabalho da sua vida. No uso desta premissa de desvendar os segredos do Hagadá, supostamente perdido no tempo, e que agora nas mãos de Hanna começam a brotar dos seus pergaminhos ancestrais, Brooks se mostra uma escritora extremamente hábil e experiente ao inserir elementos imaginários e autorais em meio a uma narrativa que muitos não ousariam se distanciar, respeitosamente, do seu realismo e da sua dramaticidade quase que inevitáveis. Quase.

Longe da leitura séria que se pressupõe a um livro cujo MacGuffin são textos sagrados, mas que cada vez mais, e pouco a pouco, extrai de seus temas sérios pitadas de mistério e poesia existencial que podemos constatar em suas rápidas trezentas e poucas páginas, As Memórias do Livro é feito de reviravoltas oportunas e, acima de tudo, de desdobramentos. Pouco importa a paixão em que seus diálogos são escritos, ou seus inteligentes momentos de êxtase e frenesi: A direção que se toma a partir dos efeitos múltiplos de se mexer com o passado e revitalizá-lo, literalmente, com Hanna se aprofundando, postulando e resgatando cadências de outrora, faz afetar o presente de todos os envolvidos na trama arqueológica, e revelar aliás tramas paralelas que compõe uma história principal de uma forma coerente e prazerosa que pouco se testemunha, hoje, nos best-sellers ofensivos, anistóricos e assexuados de Dan Brown, e cia.

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