[Resenha] As Sobreviventes – Riley Sager

O subgênero do terror conhecido como slasher foi fundamentado como um estilo a partir da década de 1970 com dois grandes clássicos do terror: O Massacre da Serra Elétrica (1974), de Tobe Hooper, e Halloween (1978), de John Carpenter. A tradução do verbo slash, retalhar, cortar, apresentam pistas do subgênero, fundamentado por um assassino serial, com ou sem máscara, que elimina um grupo de pessoas com, provavelmente, poucos sobreviventes no final.

Evidentemente, há registros anteriores a tais marcos como Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, porém, as estruturas analíticas em torno do subgênero não haviam sido desenvolvidas. Dessa forma, os filmes citados permanecem como um dos primeiros fundadores e, posteriormente, a década de 80 daria vazão a grandes séries slasher como A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13 e, na década seguinte, com Pânico.

Escrito por Todd Ritter sob pseudônimo de Riley Sager, As Sobreviventes, lançado pela Editora Gutenberg, retoma a tradição dos slasher apresentando um depois dos massacres vistos em diversos filmes. A trama é centrada na jovem Quincy Carpenter, a única sobrevivente de um massacre terrível. Ao lado de outras duas sobreviventes de situações similares, ganharam a alcunha de sobreviventes pela mídia. Mas Quincy é a única que guarda poucas recordações de sua noite fatídica, até que novas informações trazem novas lembranças e, finalmente, a verdade.

Sager desenvolve certo ineditismo narrativo ao apresentar um momento posterior após os filmes de horror. Compondo uma narrativa dividida entre primeira pessoa – narrada por Quincy no presente – e terceira – ao apresentar, aos poucos, os fatos acontecidos no massacre que transformou a personagem em uma sobrevivente – a tensão se desenvolve a cada capítulo. Sendo uma obra oriunda do gênero slasher, é como se, a cada nova revelação, fosse iminente a aparição de um homem mascarado e uma faca afiada. Um tipo de leitura fluída que ganha o status de page-turner, uma obra que gera intensa curiosidade por parte do leitor que o faz ler capítulo após capítulo, até o final.

Ao selecionar uma personagem central como Quincy, uma sobrevivente de um massacre brutal, o autor é capaz, mesmo em uma trama mais próxima do suspense, introduzir uma psicologia profunda na garota diante de uma situação-limite com alto índice de trauma. Cada uma das sobreviventes reagiram a sua maneira com seu próprio passado. No caso da garota, o bloqueio neurológico não só funciona como afastamento da situação como garante ao leitor descobrir junto com a personagem os novos fatos sobre o dia fatídico.

Se os filmes sempre pontuam as personagens focadas em um tempo determinado, um final de semana, uma festa comemorativa, a narrativa expande esse tempo, demonstrando que, apesar da grande violência, tem-se um cotidiano normal de alguém que procura recomeçar a vida, apesar do trauma vivido e da característica exploração midiática, comum aos acontecimentos e escândalos de grande repercussão.

Um evidente amante do gênero, Sager transpõe com qualidade as bases do subgênero à sua ficção. Dessa forma, comum ao subgênero, o desenlace traz uma revelação final com reviravoltas, como manda a regra sobre a revelação do assassino, nem sempre tão imaginativa assim. Porém, os fatos são coerentes com a história, ainda que seja interessante pontuar que o leitor que não se sente confortável com o estilo slasher, talvez se incomode com o desfecho. Porém, mesmo nele, há uma interessante discussão sobre a adoração que muitos tem sobre tais massacres reais, como, por exemplo, o sempre presente interesse de muitos a respeito de famosos assassinos seriais.

Com o apoio da leitura atenta de Stephen King, mestre que elogiou a obra como um dos thrillers do ano, As Sobreviventes, eleito uma das melhores leituras de julho no Goodreads, é uma interessante narrativa de suspense que se distância um pouco do comum, alinhando na literatura um dos subgêneros mais queridos dos filmes de terror.

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