Resenha | Barcelona não é Espanha – Márcio Menezes

Barcelona Não É Espanha (Editora Rubra), do escritor carioca Márcio Menezes é um romance açucarado e despretensioso sobre vida em outro país. Despretensioso porque carrega o tom de uma conversa de bar, mas eficaz e muito bem estruturado sobre como a vida de um imigrante ilegal, nos tempos atuais, carrega uma esfera particular de caos e incerteza de que qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, pode acontecer.

Na trama, acompanhamos um personagem sem nome (alter ego do escritor?) que viaja com a namorada a Espanha para juntos se estabelecerem lá. A diferença é que ela tem um passe universitário e ele não. Os meses passam e a relação entre os dois, em um país estrangeiro, perde o sentimento que havia antes. Ela passa a trabalhar nos fins de semana para ganhar alguma renda e ele continua um “observador das ruas”, na melhor das hipóteses, aprendendo sobre aquela cidade e arranjando outros relacionamentos. A visão sobre a capital catalã se modifica. Se antes, os dois a observavam pelas propagandas como cosmopolita e acolhedora, logo começam a notar os moradores ultrapatriotas que depositam nos estrangeiros a causa de todos os males possíveis.

Esse o ponto alto e reflexivo do livro: o desafio da imigração na nossa aldeia global (vide o trabalho do filósofo Marshall McLuhan). Menezes dialoga com outros escritores cosmopolitas, como Salman Rushdie, Amós Oz, Kazuo Ishiguro, e aqui no Brasil, Bernardo Carvalho, João Paulo Cuenca e Tatiana Salém Levi, por exemplo. A diferença, contudo, é que o imigrante ilegal de Menezes é um brasileiro tentando o passe definitivo no outro país, e descobrindo, ao contrário do que pensava, que o brasileiro se define mais como um luso-africano do que um latino-americano.

Outro ponto muito positivo é que o texto de Menezes integra acontecimentos reais. Em várias passagens encontramos uma preocupação do autor em relatar quais acontecimentos políticos estavam acontecendo naquele momento e no futuro próximo de Barcelona. Novamente, não se trata apenas de uma obra de ficção, mas de uma espécie, guardada as devidas proporções, de um livro de jornalismo literário por conta da precisão de expor os fatos políticos e sociais que também afetavam a vida do personagem ficcional.

Estilo despretensioso, acuidade ao relatar as informações reais, desventuras (você já doou sêmen, roubou obras de arte, foi cobaia para jovens cabeleireiros, foi iluminador de espetáculo pornô, para sobreviver?), sexo, perseguições, referências musicais espantosas, e nazistas, preenchem as páginas de Barcelona Não É Espanha.

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