[Resenha] Cândido, ou o Otimismo – Voltaire

candido ou otimismo - voltaire

Já no preâmbulo do romance, o autor transparece o seu sentimento de desprezo pela classe burguesa ao descrever os primeiros personagens de um modo subliminarmente cáustico. O épico biográfico Cândido, ou o Otimismo narra a trajetória de seu personagem-título, dando aos capítulos uma alcunha que basicamente resume os fatos que se seguirão, quebrando a expectativa do leitor ao mesmo tempo em que o conduz em pensamento, sem margem alguma para outra interpretação dos fatos narrados, ao menos não em um plano superficial.

O recurso de antecipar os fatos corridos é um artifício visto em outras obras de Voltaire, especialmente no conto Zadig, em que o personagem principal – assim como Cândido – tem um ideário muito semelhante ao do autor, não sendo exatamente a figura voltairiana, mas apresentando características de uma alternativa versão do romancista. Em comum entre os dois personagens há também um conjunto de eventos completamente inglórios que permeiam a vida destes, em episódios insólitos e de caráter profético. As semelhanças também passam pela situação política dicotômica entre Babilônia e Israel, ainda que cada um destes lugares esteja localizado em um pólo da disputa. Cândido é uma representação do povo israelita, cuja conduta pessoal remete a inúmeras condições e comportamentos da classe e estereótipos judeus.

Apesar de construir o texto utilizando a narração em terceira pessoa, Voltaire se usa de diálogos que inserem o leitor na voz e na vida de seus personagens, que iniciam alguns dos capítulos confessando as barbaridades e atos violentos que sofrem. O fôlego destas inserções é assegurado pela curta duração dos capítulos, que não permitem ao receptor perder a atenção nas descrições publicadas no livro.

Cândido segue sua trajetória variando entre o passado burguês e repleto de luxos e uma vida na juventude em condições difíceis, até de penúria, semelhante ao ofício de gonzo que Hunther Thompson faria, séculos depois, ao investigar seus objetos de interesse por meio da inserção. Voltaire compartilha dos mesmos agouros dos menos afortunados, vivendo na América do Sul do mesmo modo que os nativos, já sem os luxos provenientes de sua fortuna.

Após uma aventura desbravadora, Cândido tinha uma condição de riqueza que jamais imaginara para si, tendo sua fortuna ligada ao seu nome e não mais a qualquer familiar. Mesmo quando se encontra em uma posição favorável financeiramente, Cândido ressalta o valor das coisas não materiais, entre elas as sentimentais. O protagonista parecia prever que em breve seu fortúnio mudaria e que sofreria reveses. Sem se abater, o jovem se utiliza de sagacidade e sabedoria para driblar as adversidades que a ele se apresentam, passando por cima de divergências de crenças dos poderosos, elemento parecido com o conto bíblico de Daniel, cuja semelhança se configura inclusive na fé no maniqueísmo.

As diferenças culturais entre o ideário de Cândido e o dos lugares por onde passa se agravam, e ele e seus amigos se enfiam em apuros dantescos, sendo levados à cárcere, seguido de uma fuga e de uma quase morte do herói. Todo o escapismo que permeou as aventuras reais do personagem-título buscava desvirtuá-lo do vínculo matrimonial que ele insistia em negar. Para o autor, a recusa ao casamento arranjado servia para pôr em xeque a ideologia vigente naquele tempo, fazendo paralelo com questões conservadoras da atualidade.

O estudo de Voltaire volta-se à complexidade da mente e comportamento humano, usando as previsíveis e contraditórias tradições sociais milenares para fazer um pastiche, parodiando a dificuldade que o humano tem em lidar com o que é diferente, conceito em que normalmente se aceita de bom grado uma norma ilógica, unicamente por ser a máxima antiga, e se demoniza qualquer ato que desbrave, mesmo que minimamente, o lastro da tradição. Ao final, mesmo após toda a estrada que percorrera, Cândido entrega-se e aceita a conformidade da vida que sempre destinaram a ele, alinhando-se à mediocridade, a mãe de todas as maldições, a mesma que ele tentou refutar, mas que se tornara sua fiel companheira após uma vida de sofrimentos.

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