Resenha | Carte Blanche – Jeffery Deaver

“Não havia, entretanto, nenhuma suspeita no olhar. Bond estava certo que não havia sido reconhecido.” – Cap. 35, pág. 225.

Como resistir, mesmo após tanto tempo, em um mundo de paranoias galopantes e onipresentes que, a cada novo dia, ou ainda, a cada momento, traz consigo novas desconfianças sobre todos e acerca de tudo? Ian Fleming, o criador de James Bond, nunca quis tornar as coisas mais fácil e explicar a maneira certa para isso, muito menos Jeffery Deaver, o escritor que assumiu o bastão de narrar as aventuras do espião britânico no lugar de seu clássico comunicador, já que, entregando-nos a chave para sobreviver em meio a desconfiança geral e basilar da vida de um agente secreto do governo, parte do fascínio pela figura engravatada e que atira, investiga (e atrai mulheres) melhor que qualquer um poderia muito bem ir embora pelo ralo. O não-dito também tem seu valor.

Abraçando o previsível, as aventuras de 007 são regidas pelo mistério, e nele todas se banham, integrando parte essencial deste fator para não deixar os nossos olhos descolarem das páginas a fio, uma vez que a missão dos envolvidos nesse mundo (não tão fictício assim) da espionagem internacional envolve sobretudo proteger suas fronteiras por quaisquer meios necessários, como é bem enfatizado na trama deste Carte Blanche, obra que pode ser facilmente encarada como a porta de entrada elegante e surpreendente de Bond, James Bond, adentro ao séc. XXI e seus temas mais relevantes – globalização, perda da privacidade individual, expansão tecnológica, etc.

Deaver, de O Colecionador de Ossos, sucesso dos anos 90, mostra-se hábil na escrita e constrói um suspense que entretém sem perder sua sagacidade e complexidade em diversos momentos em que tudo não depende da ação, e sim de uma boa narração contemplativa aos fatos. Fazendo-nos refletir sobre a perda das liberdades para quem mais precisa dela, quando Bond, um homem comum, bem treinado e experiente em constante movimento, perde a carta branca que tinha do governo para agir na Inglaterra da maneira que melhor lhe convém, o autor adapta todos os temas atuais já mencionados para compor, ironicamente, o contexto de uma vida que depende de esconderijos, dedicação e muita discrição em plena era dos drones, e das câmeras de celular.

Acuado, mas sem deixar de trabalhar no que melhor sabe fazer, Bond começa a rastrear um acidente explosivo na Sérvia que absolutamente não parece ter sido em vão, culminando em sinais de uma muito provável conspiração terrorista na África do Sul, envolvendo homens poderosos e a necessidade do agente de fazer o que for preciso para desmantelar criminosos milionários e garantir mais uma vez a paz do Reino Unido – e do jeitinho que ele adora fazer, livre no mundo. Em Carte Blanche, tudo é interligado como se cada peça de um quebra-cabeça investigativo formasse a própria alma da globalização, sendo que esta é tratada na história como a peça central para se conseguir decifrar um planeta cheio de conflitos, desarmonia e segundos (e terceiros) interesses entre as nações.

Certamente, não resta dúvidas que a força da mitologia de Bond nos embalando numa aventura pé no chão, sempre em busca de autenticidade com o mundo real, é tão a prova de balas quanto sua sorte em tiroteios e perseguições de altíssima periculosidade – contando inclusive com a ajuda de aliados reais e desleais para escapar das situações mais irreversíveis. Canetas explosivas, carros luxuosos sendo destruídos, femme fatales e muitos jantares em finos restaurantes, tudo está devidamente encaixado aqui, mas Deaver, como o bom articulador que é, não se apoia em simbologias apelativas em busca de reconhecimento imediato, e deixa a história fluir como se deve num legítimo conto de 300 páginas sobre o mais popular dos agentes secretos (?!).

Um romance equilibrado, em última instância, entre o seu dever de ser um best-seller e a possibilidade de ser mais que um mero suspense contemporâneo com a criação de Fleming habitando suas páginas. Contudo, há pouco em Carte Blanche de realmente memorável, em meio ao prazer de sua leitura fácil e descomplicada (para isso, também há um glossário com o significados das siglas das agências de segurança referidas na trama, algo bastante útil aos leitores mais curiosos). Justiça seja feita: ler Bond é sempre melhor que assistir Bond, por melhor que seja a trilha sonora de Monty Norman criada para uma Hollywood que se vende fácil para a ação, e pouca importância concede ao que realmente importa nesse mundo nada glamoroso das grandes paranoias governamentais: a paz.

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