Resenha | O Cemitério – Stephen King

Quando escreveu O Cemitério, em 1983, Stephen King já havia publicado alguns livros, entre eles clássicos como O Iluminado, Carrie e Christine. Sua versão sobre os zumbis teriam um pouco de influência de George A. Romero, mas também uma carga dramática, envolvendo falecimento de animais e bebês. A publicação se divide em três partes, além de um epílogo. A história é focada na família de Louis Creed, um sujeito que teve problemas sérios com seu pai e se muda para uma pequena cidade do Maine, com sua esposa, filhos e seu gato, Winston Churchill, para exercer a medicina em uma universidade.

King tem uma narrativa que revela seus detalhes de forma gradual, nada é dado de maneira explícita ou didática, aos poucos Creed revela o que sente, principalmente ao se aproximar de seu vizinho mais velho, Judson Crawd, que o faz lembrar seu pai. Aos  poucos, os dois homens passam a beber e a confraternizar juntos. Os Creed acabam conhecendo um cemitério próximo de sua casa, e sua filha Ellie indaga sobre a morte, onde Louis opta em não discutir a questão. A partir desse momento, começa uma briga entre Louis e sua esposa Rachel, e é aqui que ela revela parte de seus traumas. Por mais que o foco do livro seja o terror, há uma forte carga dramática, revelando o receio do marido em prosseguir com algumas discussões.

O protagonista tem problemas sérios pela frente, primeiro, a associação que faz de Judd com seu pai, refletindo nele a questão parental como algo forte na trama, além dos perigos da estrada existente em frente de sua casa, onde passam muitos caminhões em alta velocidade. Ao ver um atropelado chegar a universidade ele passa a ter medo da estrada, e passa a olhar o tal cemitério como um lugar diferente, por mais que sua incredulidade fale mais alto. Ele sonha com o rapaz, e teme que algo pior aconteça, e até por conta da forma como Rachel lida mal com a morte.

O estranho aqui é que o trauma de sua amada ajuda Louis a piorar suas paranoias, de uma forma que sua neurose passa a ser corroborada tanto pelos momentos em que tem encontros “espirituais” com mortos da estrada, como quando tem de discutir com a esposa sobre a forma que lida com a morte. A forma como King trabalha o fluxo de pensamento e reflexão de Creed, tanto em discussões sobre a finitude da vida, quanto a questão de tragédias familiares. Perder um animal de estimação é terrível, e Louis sente falta de seu bicho, mesmo que não tenha o mesmo sentimento de sua filha, mas é errado supor que o ato que pratica é feito só para não falar sobre a morte com seus filhos, afinal, como garoto que nasceu órfão, seu sentimento parece ser mais o de manter sua família completa, já que ele nunca teve isso.

King elucubra sobre o luto e a morte, e a terrível angústia que se sente após perder um ente querido, sobretudo um filho, pois a parte dois do livro começa em um funeral, sem sequer descrever como o infortúnio ocorreu a família. A partir daqui o terror deixa de ser psicológico e vira um mergulho em obsessão, vícios e auto-engano, transformando o protagonista em um ser insano e desesperado, ao ponto de refletir sobre a passagem bíblica envolvendo a ressurreição de Lázaro como uma alternativa para suas dores. Sua está tão confusa que ele delira sobre os fatos futuros, e quando sua consciência tenta impedi-lo, ele simplesmente ignora.

Tudo que segue o rumo final tem um tom assustador, e o modo como o escritor mostra a ultrapassagem à barreira da loucura faz muito sentido. Seus atos estranhos e a violação do túmulo se tornam só um sinal da aproximação da máxima bíblica de que um abismo chama outro abismo. Todo o terror nesse trecho é rico em detalhes e violência, e a angústia do desfecho só é tão forte por conta de todo o desenvolvimento do suspense estabelecido antes pelo autor. O Cemitério termina mostrando como o homem é capaz de cavar sua própria sepultura, condenando a si e aos seus, tudo isso em um livro tenso, que pervertes expectativas e causa angústia e assombro em quem lê.

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