Literatura

Resenha | Coisas Frágeis – Neil Gaiman

Compartilhar

Dentre os grandes autores britânicos a trabalhar com histórias em quadrinhos estadunidenses a partir de meados dos anos 1980, Neil Gaiman é com certeza um dos que mais se destacou. Sua obra mais conhecida, Sandman, ainda hoje é reverenciada por milhões de fãs através do mundo, e continua sendo reeditada em encadernados de luxo ou versões comemorativas de aniversário. Nada mais justo, pois os textos do autor trazem não só uma incrível imaginação quanto uma forma sóbria, ora fantástica de se contar histórias. Com textos que abordam a vida humana através da ótica do sobrenatural, Coisas frágeis é uma coletânea de contos do autor escritos e publicados em diversas ocasiões diferentes, que recheiam um volume que, mesmo não utilizando recursos gráficos das histórias em quadrinhos, fazem o leitor imaginar cada cena como algo bastante complexo e, ao mesmo tempo, agradável de se ler.

Em suas páginas, Gaiman brinca com estilos diversos, chegando a fazer um crossover, logo no primeiro conto, entre o universo de Sherlock Holmes e o mito do Grande Cthulhu, seguindo de certa forma o que seu conterrâneo Alan Moore fez anos antes com A Liga Extraordinária. O autor se utiliza de elementos conhecidos por leitores de várias gerações e que já estão em domínio público para reimaginar Baker Street numa trama que nem mesmo o maior detetive de todos os tempos poderia sequer imaginar.

De forma mais ou menos similar, vemos claramente em seus contos elementos “emprestados” de outras histórias – sem, contudo, ferir os direitos autorais de seus respectivos autores ou proprietários. Gaiman escreve uma história de ficção científica ambientada no universo de Matrix, outra sobre uma personagem de As Crônicas de Nárnia, e por aí vai. Contudo, a forma com que o autor aborda cada universo retratado é única e diferente, levando o leitor a refletir sobre temas pesados e importantes de forma inédita. Fazer algo novo de velhos e conhecidos conceitos parece ser uma especialidade inerente a Neil Gaiman.

Dos nove contos apresentados no volume, talvez o que mais denuncie o estilo consagrado de Gaiman seja A vez de Outubro. Aqui, seres elementais da natureza – os meses do ano – ganham características humanas, algo que ele fez com os Perpétuos durante toda a saga de Sandman. Os meses conversam ao redor de uma fogueira e contam seus anseios, medos e incertezas, além de seus próprios mitos e lendas.

Assim como o personagem Sonho o consagrou nos quadrinhos, foi também em um sonho que o título do livro surgiu para Gaiman: “Acho... que prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis, a uma vida gasta evitando a dívida moral”. Coisas Frágeis foi publicado pela Editora Conrad no Brasil, e é uma excelente coletânea de contos de Neil Gaiman tanto para aqueles que já conhecem o consagrado escritor quanto para quem ainda não leu nada escrito por ele.

Dan Cruz

Professor de História, marido, pai e Mestre dos Calabouços nas horas vagas. Viciado em quadrinhos e RPG, acredita que o Superman existe e sonha em ser um Lanterna Verde, pra combinar com sua camisa do Palmeiras. Gosta de sorvete de pistache, mas sempre esquece e acaba comprando de chocolate.
Veja mais posts do Dan
Compartilhar