Resenha | Contos Inacabados – J.R.R. Tolkien

Para J.R.R. Tolkien, a fantasia é tangível tal uma imaginação tão nobre, que merece ser palpável aqueles que nela mergulham. Peter Jackson entendeu isso, e fez da Terra-Média nos cinemas algo vivo, e pulsante. Ainda assim, sempre esteve em seus três grandes filmes passos atrás da força literária das experiências imersivas do mestre absoluto da fantasia moderna, tanto em narrativas acabadas e coerentes como as de O Senhor dos Anéis, O Hobbit e O Silmarillion, quanto em outros de seus tratados menos conhecidos. De posse de inúmeros contos incompletos que habitavam apenas a mente multicriativa do autor para servirem de rascunho a algo muito mais ambicioso, uma verdadeira colcha de retalhos sobre o mundo extremamente real que existia na cabeça (e nos dedos) de Tolkien, seu filho Christopher Tolkien tratou de reunir todos os manuscritos originais, sete anos após o falecimento do seu pai, em um único e honorável volume da editora WMF Martins Fontes, no Brasil.

Assim, a fim de aprofundar o encantamento das obras do mestre, concebeu em quase seiscentas páginas um longo objeto de análise da impagável e inesgotável potência fantasiosa de Tolkien – ainda que não tão empolgante quanto suas outras inserções sem-par no gênero. Longe de transmitir um gosto de esgotamento ou abuso as ideias sem fim do pai, Christopher nos propõe imprimir uma coerência e uma fruição dinâmica entre narrativas inacabadas, apêndices discursivos e notas descritivas a respeito de inúmeros detalhes, e coisas não-ditas e não-escritas que sempre habitaram o pano de fundo de suas populares histórias. Isso nos faz imaginar quais notas enriquecedoras (e obscuras) podem existir, para sempre escondidas, acerca de Dom Quixote, Dom Casmurro e, porque não, as peças de William Shakespeare. O que seus grandes autores também não deixaram de fora dos seus escritos principais? Anotações oriundas de consciências naturalmente privilegiadas.

Tarefa hercúlea como só, logo na introdução já atestamos as dificuldades da produção de Contos Inacabados, uma vez que cada conto demandou um tratamento diferente, combinando alguns relatos curtos do próprio Tolkien ao longo dos textos, e pedaços de outras citações que o autor foi dando ao longo da vida sobre aspectos complementares à sua gigantesca obra – sempre alimentando e sofisticando a mitologia de suas criações, lendas e entidades tão imortais, quanto as palavras que as descrevem. Aqui, tais “retalhos” são divididos entre a primeira era (que dá cabo de grande parte dos detalhes da fantasia principal de O Silmarillion), uma segunda era (reservada principalmente a exploração da geografia da Terra-Média, e a etimologia de vários nomes que já fazem parte do grande arco do O Senhor dos Anéis, como o sábio Gandalf e a magnífica Galadriel) e uma terceira era, estabelecendo nesta última faixa temporal recortes interessantes de muito do que foi lido (e visto) em A Sociedade do Anel – revelando inclusive que Gollum fugiu para Moria para escapar dos agentes de Sauron, atrás dele devido a certeza de que a criatura sabia onde estava escondido o Um anel.

É certo que o magnetismo que Tolkien desperta não precisa de um grande acabamento a preencher tudo aquilo que não é descrito em suas narrativas fundamentais. Assim sendo, Contos Inacabados acaba sendo um complemento de luxo aos mais curiosos e ávidos pelos pormenores de uma história quase que interminável (através das gerações que (re)modelaram os destinos da Terra-Média) devido suas proporções realmente majestosas, e repletas de inspiração aos próximos mestres da fantasia – e não um mero escapismo, como muitas vezes é confundida, hoje em dia. Não se deve negar a oportunidade de conhecer o processo criativo dos grandes mestres, por mais tortuoso e nada glamoroso que este possa ser, mas não estar a par de suas minúcias não resume seus efeitos sobre os fãs do material. Se em Silmarillion nós conhecemos as fundações dessa dimensão de dragões e inúmeras formas de poder, Christopher Tolkien nos apresenta a reunião dos blocos de notas do seu pai – extensos o bastante para preencher um tijolo literário enriquecedor ao grande todo, mas um tanto desnecessário, no uso menos cruel possível da palavra.

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