Literatura

Resenha | Corredor Polonês – Alfredo Sirkis

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“Nesse frio, circo nenhum pega fogo. Circo gela.”

Naturalmente, há poucas semelhanças entre Brasil e Polônia. O primeiro, conhecido por suas praias, festas e outros elementos tropicais; o segundo, por seu passado impiedoso e um gelo que parece impregnar a tudo, e todos. Dois universos díspares dentro de um mesmo planeta marcado por grandes conflitos cujas marolas, praticamente, não chegaram com força nem mudaram os rumos no maior país da América Latina. Entretanto, durante a segunda guerra mundial, no longínquo ano de 1939, os poloneses serviram de berço oficial ao conflito, e assim, conheceram na pele a crueldade humana que pode se esconder naquelas suas gélidas veredas que os calorosos brasileiros não conseguem nem imaginar, palco, certa vez, de uma frieza muito mais aguda que quaisquer temperaturas abaixo de zero que o homem já teve de enfrentar.

Sabendo da neutralidade brasileira diante de quaisquer eventos da história polonesa, e da nossa total falta de identificação sobre o passado ainda latente de um país tão distante, em tudo, do nosso, o escritor, jornalista e político carioca Alfredo Sirkis arquiteta seu Corredor Polonês em torno do humanismo, e do humanitarismo pós-guerra. Ou seja, temos em voga uma obra na qual seu mais sincero fervor, e a sua brilhante capacidade biográfica, e em formato de crônica, dentro do contexto cultural de qualquer sociedade, se dá através de uma compreensão universalmente acessível quanto ao drama de ter a sua vida, sua família e sua pátria devastadas por invasões, combates intermináveis, e um infinito de crimes contra a humanidade. Mesmo assim, no seio de uma família destroçada pela partida de seu patriarca, o Dr. Binek, o que sobram a suas filhas (e à memória de todos os envolvidos no processo árduo de sobrevivência dos poloneses) são os valores de uma gente que encontrou na decência aprendida em família, e no nacionalismo, a chave para uma utópica e desesperada resistência.

O livro da editora Record é fruto de uma longa pesquisa de Sirkis, dono de uma prosa irresistível, e que revira os ecos dos imigrantes poloneses no Brasil cujo DNA para sempre será fortalecido pelos traumas deste povo, quase exterminado, com suas mulheres enviadas ao sofrimento no frio e miséria absolutos no norte da Ásia (o “fim do mundo”, como apelidam as filhas de Binek), enquanto o resto da masculinidade polonesa morria contra a Alemanha de Adolf Hitler, ou tentava o milagre da fuga pelas florestas do país. Em meio a desolação branca manchada de vermelho, Sirkis injeta poesia e lirismo em uma trama intimista que se debruça no real para poder existir – o tema do fascismo é por vezes presente, aqui, tal um espectro sombrio e atemporal, em várias passagens que se destacam por expor a espetacular sagacidade e sensibilidade do autor. Afinal, eis uma sociedade perdida no meio de um furacão nazista, e se engana quem acha que Corredor Polonês, numa clara alusão a faixa de terra que Hitler tanto sonhava em recuperar para a Alemanha, seja apenas sobre o percurso de uma guerra arrasando este belíssimo país europeu.

Tudo mudou naquela invasão a Polônia, e os fantasmas desta sociedade também. Exércitos não marcham sem deixar pegadas eternas para trás, muitas vezes internas, carregadas em um mundo globalizado nos corações dos mártires, e algozes – ninguém escapa. Se há uma questão mais pertinente aqui do que a injustiça histórica que se abate ao soldado polonês que nunca chegou a testemunhar o retorno da paz a sua sagrada Polônia, pois morreu para conquistá-la, ainda que indiretamente, para que suas filhas e netas pudessem um dia entrar e sair com liberdade do país, fica sendo então: “e o Brasil, com tudo isso?”. Um país sempre visto como o novo mundo, no imaginário popular: uma árvore frondosa, virgem de grandes tempestades, com espaço o suficiente para todos se alojarem, e lá fazerem os seus tão sonhados ninhos de segurança, e de prosperidade. Mas e quanto ao passado, coloca-se na gaveta e o esquece? Ele mesmo não permita que façamos isso com ele, e o livro é justamente sobre isso. Uma grande leitura que merece uma republicação após tantos anos esgotado.

Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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