Resenha | Dupla Falta – Lionel Shriver

Há quem acredite que Cenas de Um Casamento, do sueco Ingmar Bergman, é o mais verídico dos romance já exibidos numa tela de Cinema. Isso porque a forma crua e ultra realista de Bergman para expor uma relação “romântica”, quase que documentalmente, fatalmente impressiona os mais apegados a versão conto-de-fadas sobre o que é, de fato, um namoro, noivado ou um casamento de verdade. Poucos filmes, livros ou peças foram tão a fundo e ousados neste sentido quanto a obra-prima do autor de O Sétimo Selo, ao explorar muito do que ocorre, do dito e do não-dito por duas pessoas que dividem a mesma intimidade, os mesmos segredos, a mesma cama e os mesmos problemas. No caso de Willy e Eric, ambos compartilham de algo que pode ser (mais do que) fatal para qualquer casal, que se preze: as mesmas ambições profissionais.

Ou seja: os mesmos assuntos que não se falam na mesa do jantar, mas que para eles são sussurrados no sexo, e discutidos no banho, de maneira inevitável. Dupla Falta, da editora Intrínseca, é sobre a crescente falta de equilíbrio num relacionamento, quando tudo que se passa a existir entre duas pessoas que antes se amavam é a competição, o egoísmo, e a intriga. Nota-se aqui que o uso da palavra “ambição” não poderia ser substituído por “inspiração”, já que tanto Willy quanto Eric, duas ótimas personagens da ficção moderna, evidenciam cada vez mais sua ganância propriamente (não) dita em relação ao tênis – esporte mais que elitista no Brasil, mas nem tanto nos Estados Unidos para os brancos mais abastados que já possuem um certo dom e adoração por sua prática, como é o caso deles. Dois adultos que, por trás de sua aparência madura e suas raquetes, escondem algo pior que a mais aguda das imaturidades: a perversa rivalidade galopante contra quem, um dia, tentou-se fazer feliz.

E tudo lavado no mais puro suco da hipocrisia e da falta de comunicação que acomete a tantos, por ai, num drama bem estruturado, no livro. A ponto de Dupla Falta não conseguir mais ser absorvida por nenhum leitor, a certa altura, como uma história de amor com seus clássicos elementos, pois a verdadeira tragédia aqui é o próprio enlace constante, do início ao fim, de uma mulher capaz de tudo para ser uma das melhores no célebre ranking mundial de tênis, e um homem que aparece em sua vida para despertar com força seus instintos mais básicos, dentro e fora das quadras, culminando em grandes consequências em suas carreiras, e visões de mundo. Se antes era ela e seu fiel e exigente treinador Max contra todos, agora o jogo parece ser contra seu próprio instinto de destruição a um sentimento tão nobre, e a um homem que a desafia tanto quanto seus sonhos mais arrogantes. Willy é uma personagem insegura, mesquinha e paranoica, e Eric é a sua possível redenção num mar (que os dois tentam esquecer, se dedicando ao esporte) de pura solidão, stress, e culpa.

O próprio título do romance já dá o sinal do que vem: o abismo entre os dois é enorme, enquanto ambos tentam se amar e se respeitar numa guerra imposta, e alimentada, pelo o que os uniu: o esporte, a rivalidade, e a ingênua esperança que uma paixão duradoura iria suavizar as coisas na vida profissional, de cada um. Lionel Shriver, autora do popular Precisamos Falar Sobre o Kevin, nos oferece uma narrativa veloz, igualmente sagaz até mesmo nos momentos mais tensos (como no primeiro aniversário de casamento dos dois) junto a um leão, e uma leoa, que lutam pela liderança do seu bando. Ela, desde criança com a raquete em punho, e ele, um matemático que caiu de amores por seu objeto de desejo. Mesmo para os leitores mais desavisados sobre os termos do mundo do tênis, Shriver faz da leitura algo universalmente divertido e instigante sobre uma relação que sabemos, desde o início, que não acabará bem pelo menos para um dos lados – e, se acabar, será por conta de forças muito além desse casal nota mil cujo desequilíbrio, hipocrisia e afetação nós adoramos tanto acompanhar, bem de perto. Eis a realidade forjando seus espelhos na ficção mais uma vez, e com desdobramos tão fortes e imprevisíveis quanto uma chuva de verão.

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