Resenha | Duro de Matar – Roderick Thorp

Joe Leland, o investigador que Roderick Thorp criou em seu romance O Detetive (este também foi adaptado para o cinema, em Crime Sem Perdão) retorna nesse segundo volume, chamado originalmente  de Nothing Lasts Forever (em tradução livre Nada Dura Para Sempre) e batizado aqui com o mesmo nome do filme, Duro de Matar, onde o policial nova iorquino resolve viajar para a Califórnia para passar o natal com sua filha e tem evidentemente algumas surpresas.

Thorp é conhecido por ter traçado o caminho da cocaína via Herald Examiner, onde descobriu a origem da droga, na America do Sul até a chegada na California, e esse conhecimento jornalístico ele emprega neste livro.  A historia é toda contada a partir da contagem do relógio, em direção ao grande evento que justificaria todas as desventuras que Leland vive. Apesar de não ser uma historia de estética noir há ali, seja na descrição de casos que o investigador não pegou, como um em quem um homossexual enrustido teria matado pessoas, trazendo a tona estereotipo sexual para um vilão, ou simplesmente o vício de cigarro que Joe tenta largar. Ambos aspectos são considerados negativos pelo homem, ou seja, ele não quer ser associado nem ao vício e nem ao simplismo de julgar alguém por conta de sua orientação sexual.

O desenrolar lento do livro é lento, e Thorp claramente tem uma preocupação moralista com o divorcio, mostrando que em 1986 ainda havia uma resistência forte a esses relacionamento de desquite. A violência começa comedida , e é muito bem descrita, tal qual no roteiro do filme, e a estrutura da trama se divide em antes e depois da virada de natal, com o ritmo frenético acontecendo após a meia noite, onde se serviria a ceia.

A tradução desta versão da Editora Record é curiosa, variando entre o uso irrestrito de tempos como pretérito imperfeito ao mesmo tempo em que não se furta em usar palavreado coloquial, com palavrões e xingamentos mais fortes. Essa visceralidade dos diálogos combina com outro aspecto da trama, que é o foco no instinto de sobrevivência de Leland, que é capaz de fazer qualquer coisa para sobreviver, tal qual sua contra parte John McLante. Ele caça aperitivos para não sofrer com inanição, se alimentando com o que consegue encontrar pelo prédio assaltado. Os bandidos matam reféns – em determinado momento, fala-se em sete vitimas – e acertam um helicóptero da polícia.

Leland no último capítulo está pessimista, achando que não conseguira resolver a questão do prédio tomado pelos bandidos e esse espírito foi largamente usado no personagem de John McLane em especial no primeiro filme e em Duro de Matar 2, ele acha que fracassará, basicamente porque a situação parece impossível de ser resolvido. Em meio a dor, o detetive utiliza os maços de nota que os bandidos tentavam roubar para atrair atenção ao prédio que está sendo atacado, tacando alguns desses milhões para baixo, fazendo com que as pessoas notem que algo estranho acontece ali, isso, lesionado, com a perna dormente enquanto as pessoas que o rodeiam tem Rigor Mortis.

No final, Joe Leland está anestesiado, por conta da dor que sentiu quando combatia os malfeitores e um dos vilões – Karl – surge em meio as cinzas, quase como um morto vivo para atacar-lhe, e um sacrifício entre os que estavam cuidando do tira ocorre, para que o protagonista siga vivo. O final que Thorp pensou para o seu Nothing Lasts Forever é mais forte e certeiro que a adaptação que Jeb Stuart e Steven E. Souza fizeram em Duro de Matar, e causa mais impacto por conta das perdas. O ritmo alucinante e a maestria com que a história é desenrolada nas curtas 192 páginas faz realmente a obra do autor parecer uma evolução do que Raymond Chandler e Dashiell Hammett faziam, basicamente por ser visceral e sem rodeios, com bastante ação e um final cheio de adrenalina, em uma leitura fácil e extremamente divertida, que acerta principalmente graças a simplicidade da linguagem que emprega.

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