[Resenha] Fim – Fernanda Torres

Fim - Fernanda Torres - capa

A morte é um assunto bastante abordado em meios literários e culturais em geral, sendo motivo de pauta e objeto de estudo para aqueles que ficaram. Dessa forma, a abordagem desse momento, ao qual todos nós estamos a fadados a chegar, pode ser realizada de diferentes maneiras. Alguns optam por uma recapitulação da vida do finado, demonstrando cuidado ao se trabalhar o relato sobre aqueles que estiveram ao seu lado, pontuando algumas concepções da vivência pregressa do falecido, suas obras, e em menor escala, o ponto final. O último respiro. O momento derradeiro.

Fim, de Fernanda Torres, abrange um pouco essa questão, mas, acima de tudo, narra o fim último, aquele em que não há mais possibilidades de conserto ou redenção. O romance aborda o morrer, a morte como o inexorável, mas também a vida e nossa corrida descompassada em busca dela. Seus personagens parecem saídos de um filme de Denys Arcand, trágicos, aguardando o irreversível. Fernanda dialoga com Nelson Rodrigues, influência presente em seu texto. A narrativa também tem um quê machadiano, ao descascar as aparências e na maneira com que a trama é contada, de forma similar a Memórias Póstumas de Brás Cubas. Frise-se que esses diálogos sugerem apenas uma bagagem da autora incorporada a sua narrativa sob influência desses autores, não supondo, portanto, comparações diretas com suas bibliografias.

Na trama, somos apresentados a cinco amigos, já acima dos 50 anos e à beira da morte. A narrativa é desenvolvida em primeira pessoa e entrecortada pelo derradeiro final com pessoas próximas ao falecido, oferecendo diversas perspectivas sobre o protagonista daquele capítulo. Fernanda é impiedosa. Fim não traz nada de sabedoria e paz que alguns dizem reservadas à velhice. Seus personagens são ressentidos, desamparados e alguns se mantêm em uma vida de esbórnia. Álvaro é solitário, dono de uma impotência que parece não afirmá-lo como homem e que também não dá sinais de preocupá-lo, além disso, abandonou seu amigo no momento em que este mais precisava; Neto é conservador, dono de um preconceito implícito que o faz seguir um modelo de vida sem possibilidade para erros, mas que quando se dá conta de sua vida já é tarde demais; Ciro, o sedutor, é repleto de falhas, passa a vida correndo em busca de algo que sabe que nunca mais terá.

Fim é melancólico, corrosivo, sarcástico e denso em muitos momentos. Seus personagens são reflexos de todos nós e violentam alguns valores morais com uma crueldade louvável, talvez por isso tenha dividido opiniões por aí. Bela estreia, Fernanda.

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