[Resenha] Star Wars: Herdeiro do Império – Timothy Zhan

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Cinco anos após a destruição da (segunda) Estrela da Morte, a Nova República recém instituída sofre para manter o controle político, tendo de enfrentar os resquícios do antigo regime que tinha em Darth Vader e no Imperador seus maiores expoentes. É a partir dessa premissa que Timothy Zahn introduz sua nova aventura, utilizando de um vilão carismático para aludir aos tempos de ouro do universo cinematográfico de George Lucas.

Herdeiro do Império é o primeiro volume de uma trilogia, que introduz elementos interessantes e que seriam transportados do universo expandido para os filmes oficiais. O alicerce desta nova fase é o grão-almirante Thrawn, um estrategista militar que estaria nas sombras das conquistas imperiais, motivado talvez por sua compleição azulada de olhos vermelhos, aparência que ia de encontro a todo o purismo pregado pelas fileiras ditatoriais. Seu destróier estelar Quimera serviria de contraponto a Milenium Falcon e demais naves imponentes dos heróis.

A altura do convite para escrever a trilogia, em 1989, não havia qualquer produto do Universo Expandido que tivesse passado após o O Retorno de Jedi. A recepção ao livro de Zahn foi excelente ao ponto de esgotar as edições em pouco tempo, talvez por curiosidade dos fãs, aumentada é claro pelo burburinho positivo de quem já havia lido. A aventura começa a borda da Quimera, sob os olhares atentos de Pellaeon , que ruma na direção possivelmente de seus opositores, lamentando os erros primários do Império, de investir forças em pontos isolados, como em estações especiais vulneráveis, ao invés de pulverizar os exércitos. A introdução deste personagem é quase como uma desculpa, para elevar o grau do real antagonista a níveis estratosféricos, colocando o grão- almirante em um patamar não visto sequer nos militares ditos nos filmes, talvez somente em um esboço do que seria o Grand Moff Tarkin.

A trilogia foi descontinuada, tratada recentemente como parte do selo Legends, como parte do antigo Universo Expandido, sem interferir no novo canône da saga de Star Wars. O advento da Disney poderia ser encarado como algo necessariamente ruim, mas se analisado sob um prisma maior, o saldo é positivo, pois caso não ocorresse essa mudança, dificilmente tais publicações seriam reeditadas pela Aleph, além de haver uma criteriosa seleção de títulos antigos a serem traduzidos para o público brasileiro.

Thrawn é um personagem denso, seu intelecto estrategista o põe em um nível de planejamento ainda inédito em Star Wars. Como o tom do livro passa necessariamente por ele, a literatura parece até mais ligada ao ideário da franquia de Gene Roddenberry do que a de George Lucas,  dada a complexidade de construção do oponente.

Pelo lado dos rebeldes, Luke Skywalker é mostrado solitário, chorando por se sentir orfão mais uma vez, já que as aparições de Ben Kenobi tornam-se cada vez mais raras – aspecto este levado para outras mídias do universo expandido – pondo o personagem em uma posição de fragilidade imensa. Leia está gravida de gêmeos, e sofre para tentar estabelecer a Nova República em Coruscant, planeta este transportado até para o canône de Lucas, na nova trilogia, como capital também da antiga. Han Solo e Chewbacca correm o espaço atrás de novos pilotos, procurando caçadores de recompensa, que apesar de figuras vis, seriam colaboradores interessantes caso fossem pagos, mas, sem sucesso, uma vez que Talo Karrde ocupa o papel que antes era de Jabba, cujos métodos são ligeiramente diferentes e associações ainda mais dúbias que a monstruosa criatura, tendo até o apoio de um personagem que mais tarde seria importante, Mara Jade.

A diferença básica deste vilão para os outros, é que sua pauta é inteira na razão, e não na espiritualidade. Thrawn não tem posição ligada ao lado negro da força, ele é “apenas” um militar, que se vale da experiência de Thimoty Zhan como escritor de romances típicos, para juntar forças de característica. Como bom estrategista, o grão- almirante procura formas de lidar com a “religião”, mas sem precisar aderir a ela, através do advento dos ysalamari, que são pequenos animais capazes de anular o poder da força – aspecto que provavelmente inspirou Lucas a criar os odiosos midchlorians, o que por si só já dá um peso negativo a isto – e de posse disto, o sujeito vai atrás do misterioso jedi aposentado Joruus C’Baoth, afastado desde a época das Guerras Clônicas.

Thrawn é tão implacável e impaciente com fracassos de seus subalternos quanto Vader em Império Contra Ataca, mandando que seus capangas decapitem os mandados que erram. A construção do vilão é muito bem feita, o problema de Herdeiro do Imperio está possivelmente no seu herói. Apesar de estar mais hábil, nas capacidades de luta, a personificação de Luke é torpe, pois está visivelmente mais inseguro do que visto em Retorno de Jedi, cinco anos após o filme, inclusive se distanciando da figura capaz de desmantelar todo o esquema de Jabb te Hutt sozinho, derrotar seu pai e resistir as tentações do Imperador. Não há lógica em ele ser tão carente, acusa golpes tão evidentes e óbvios como outra despedida de seu mentor, ou a solidão fruto da sua dedicação como estudante da força;

Além de profetizar como seria Koruscant, o livro também ajudou a montar o cenário de Kashyyk, que já havia evidentemente sido retratada de maneira indireta nos filmes, em Star Wars Holiday Special (toscamente é claro) e em Endor, em Retorno de Jedi, como inspiração para a terra dos Ewoks, ainda que a sua descrição não seja copiada a risca. Ao menos no espectro político, o panorama é muito bem engendrado, e comentado mesmo pelos personagens que aparentavam ser um tanto alienados nos três longas anteriores. É da boca de Skywalker, que se destaca a questão de quem o Império, mesmo sem suas cabeças pensantes anteriores, ainda subsiste, ainda que seus números sejam bastante baixos em comparação com o fronte da Nova República.

Karrde e Jade são personagens bem dúbios, não revelando quais são suas reais interações nem com os resquícios do Imperio, e nem com a nova republica. O ethos do antigo caçador de recompensas é dúbio, discutindo termos comuns a moral, mostrando que há um senso de honra ainda que velado, enquanto a dita “mão do Imperador” não se permite afiliar diretamente a Thrawn e seus subalternos, já que o distanciamento da Força claramente a incomoda, além de sua missão pessoal não ser uma clara prioridade de exterminar o filho de Vader.

O começo de Herdeiro do Imperio é um bocado morno, mas estabelece um vilão que se não tem a mesma imponência dos dois anteriores, é condizente e verossímil como todo o contexto histórico daquele instante da galáxia, onde as “sobras” dos antigos poderosos tentam insurgir sobre os vencedores da última batalha estratégico, em uma luta de foices cegas, já que nenhum dos lados está no auge de sua construção bélica.

A perseguição de Mara se torna em algo ainda maior e mais complexo, deixando simplesmente de ser presa e predador para cooperarem mutuamente de modo obrigado, já que nem ela e nem Luke parecem gostar da ideia. É nesse momento em se planta o embrião do que seria o relacionamento de ambos. Jade talvez seja o melhor legado da trilogia Thrawn, já que seu personagem se tornou exemplo dentro de todo universo expandido. Outro aspecto bem trabalhado pelo autor, é o crescimento de importância de Wedge Antilles, que teria sua presença como figura chave da Aliança Rebelde martelada pelos inúmeros jogos do Rogue Squadron, evoluindo do originário grupo que venceu a Batalha de Yavin, se tornando algo ainda mais magnânimo com a mudança de alcunha.

Além até da boa urdição dos aspectos militares, há um leve problema com as “cenas” de ação, que apesar de protagonizadas por personagens condizentes. O desfecho do romance faz eco com o aspecto positivo pinçado anteriormente, já que o talento do vilão é posto à prova, em uma batalha tática interessante, mostrando que se estivesse no comando nos momentos finais de O Retorno de Jedi, possivelmente a derrota do Império não ocorreria.

Herdeiro do Império pavimenta de maneira poderosa a continuação da saga de Lucas, trazendo uma luz sobre o destino dos personagens, grafando problemas do espectro político, servindo de base para a discussão de tudo o que foi escrito pós aventuras do cinema. A exceção de Joruus C’Baoth, que será utilizado nos outros volumes, o romance serve para estabelecer os novos personagens, fator que quase justifica as repetições de plots com os carismáticos e antigos caracteres, ainda que a fraqueza de Luke siga sem necessidade, bem como segue incômoda a falta de ambiguidade em Han Solo, fator que se repetiria em quase todo o universo expandido. A vivacidade  e conteúdo ao menos servem de estímulo, para que o aficionado possa imaginar como seriam as continuações dos três filmes primordiais, reprisando inclusive todo o carisma da jornada vista no original, com o mesmo afinco e obsessão pela força que se via nos anos setenta e oitenta.

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