Resenha | A Intimação – John Grisham

Reuben Atlee, um velho juiz da pequena cidade de Clanton, Mississipi, envia uma intimação aos filhos, Ray e Forrest, convocando-os para uma reunião de família em Maple Run, a mansão decadente em que passa os dias recluso desde que perdeu as eleições para um candidato mais jovem. Ray, o filho mais velho e formado em Direito, é professor universitário e mora em Charlottesville, Virgínia. Forrest, o mais novo, é um ex-viciado que salta de um emprego a outro. Ray é o primeiro a chegar para a reunião, e encontra o pai morto no sofá e um testamento recém-escrito na escrivaninha. Ao vasculhar os armários em busca de documentos, encontra dezenas de caixas repletas de dinheiro em espécie. E a decisão sobre o que fazer com o dinheiro definirá o que acontecerá com Ray dali em diante.

Exceto pelo fato de pai e filho serem formados em Direito, a trama não explora muito os meandros do mundo da advocacia, diferentemente da maioria das obras de Grisham. Não há grandes batalhas travadas dentro e fora dos tribunais, nem discursos inflamados dos advogados, nem estratégias explorando brechas nas leis. Mas nem por isso a intriga e o mistério que cercam os personagens são menos interessantes. Aliás, talvez por isso o livro consiga ser mais atraente para aqueles que não se interessam por thrillers jurídicos.

O suspense do livro é criado por dois mistérios. O primeiro — “de onde veio o dinheiro?” — é bem explorado e se desenrola aos poucos. Afinal, a renda de um juiz, ainda mais um juiz aposentado, não justificaria aquela fortuna. E o leitor, assim como Ray, vai recebendo e seguindo algumas pistas falsas até finalmente encontrar o fio da meada. O outro mistério, o clássico “whodunnit”  — quem está perseguindo e ameaçando Ray — revela-se bem menos interessante e de resolução quase óbvia a partir de certo ponto da narrativa.

Apesar de pouco explorada no livro, a questão sobre o que fazer ao encontrar tal montante de dinheiro naquelas circunstâncias é bastante cativante. Impossível não parar alguns minutos, várias vezes durante a leitura, e ponderar sobre qual seria nossa reação. Possivelmente daí advenha o maior atrativo do livro, já que em termos de suspense e originalidade da trama ele fica bem aquém de outros romances do autor.

Texto de autoria de Cristine Tellier.