Resenha | Jurassic Park – Michael Crichton

Em 1990, o escritor e diretor de cinema Michael Crichton (Devoradores de Mortos) publicaria sua obra mais famosa e seminal, misturando elementos de fantasia e terror com uma pitada de teoria do caos e discussões sobre ética na biologia. Jurassic Park, já em sua introdução destaca o avanço biotecnológico de manipulação genética que ocorria no século XX, tudo para tornar mais plausível o seu conto fantástico que tentava tornar congruente a habitação mútua do mundo entre homens e os seres pré-históricos.

Os capítulos começam sempre com uma citação de personagens, a chamada primeira iteração é aberta com uma frase de Ian Malcolm – o cientista que no filme Parque dos Dinossauros foi interpretado por Jeff Goldblum – em que diz: nos primeiros desenhos da curva fractal, poucas pistas da estrutura matemática subjacente serão vistas. Há também uma maior descrição da geografia das ilhas no livro, onde se fala abertamente em quais localidade ocorrem os eventos dentro do parque e nos arredores, coisa que fica um pouco confusa nos dois primeiros filmes de Steven Spielberg.

O livro já começa agressivo, descrevendo um bocado de violência e já denotando um pouco do que Crichton esperava de seu romance. Aliás, há uma timidez atroz do texto em chamar as criaturas de qualquer coisa que não lagartos, uma vez que as primeiras criaturas descritas nessas páginas são bastante pequenas. Além disso, a Costa Rica era desmatada, o que provocava um êxodo de animais, o que propiciava também a chegada de novos moradores, os tais lagartos, que também eram acompanhados de outras preocupações, como a dos vírus que acompanham os lagartos, prejudiciais inclusive para os humanos.

Ainda falando de localidades, o parque fica localizada na Ilha Nublar – ou Isla Nublar – um espaço arrendado pela Internacional Genetics Technologies Inc (ou simplesmente Ingen), de Palo Alto. Apesar da nomenclatura, o lugar não é exatamente uma ilha, segundo o livro, e sim um monte submarino, uma elevação de rocha vulcânica no fundo do mar, que possui géisers e outros fenômenos naturais. Obviamente, este é um lugar fictício.

 A leitura do material de Crichton é muito simples e dinâmica, seu estilo é muito comparado ao de Dan Brown, embora ele claramente tenha mais conteúdo a discutir e estilo literário. A apresentação dos personagens é bastante rica e quando eles aparecem têm uma recepção calorosa, típica de rockstar, em especial claro, Ian Malcolm, o matemático que brinca com o estereótipo de James Bond.

As conversas entre Malcolm e o doutor Doutor Wu (que voltaria na franquia Jurassic World, do cinema) é bem detalhada quanto aos problemas de decomposição de fezes das criaturas, uma vez que por elas terem sua extinção a milhões de anos, as bactérias que faziam suas necessidades se decomporem também não existem mais, de modo que se cria um problema de logística ai. Nesse trecho também há uma discussão de matemático com o paleontólogo Alan Grant, que explica que os velociraptors tem uma conjuntura de DNA que mescla elementos de répteis na aparência e aves nos movimentos, fato que faz deles figuras muito imprevisíveis. Quando Wu – ou qualquer outro funcionário do parque – é indagado sobre os raptors a resposta é sempre a mesma, de que há total controle sobre as criaturas, de que elas não poderiam viver fora do cativeiro e de que há total vigilância sobre os animais, exceto por alguns filhotes, esses também, inofensivos e é nessa margem de erro que fica a dúvida de Malcolm e consequentemente, do leitor também, que é conduzido pelo personagem a sentir isso.

Após discutir com o idealizador do parque John Hammond e outros que trabalham no espaço, Malcolm levanta a possibilidade de os dinossauros estarem se reproduzindo sem controle, fato que segundo Wu e Hammond seria impossível, já que eram todas fêmeas, mas como diz o discurso de Malcolm – Porque a história da evolução é de que a vida escapa a todas as barreiras. A vida se liberta, a vida se expande para novos territórios. Dolorosamente, talvez até perigosamente mas a vida encontra um jeito – e a preocupação dos investidores não era de que a população aumentasse e sim diminuísse.

A Quarta Iteração começa frenética, quando os visitantes se deparam pela primeira vez com o Tiranossauro Rex, com a criatura percebendo que em meio a chuva, a cerca eletrificada deixou de fazer efeito. Crichton cria muita expectativa no leitor, e seu modo de lidar com elementos de thriller e suspense são muitíssimo bem elaborados, acompanhando atenciosamente os fatos narrados, deixando o leitor bastante apreensivo, em especial no embate entre Grant e o T-Rex, tanto no momento em que o doutor percebe que se ficar imóvel não será detectado, como também quando é arremessado longe pelo animal, onde mesmo com dor pode sentir a atmosfera ao seu redor mudar, em uma sensação semelhante a de quem está morrendo, ou ao menos é o que se passa em sua cabeça. De maneira bem simples essas sensações são passadas a quem lê, e quase se pode viver esses acontecimentos.

Se discute nos lados internos do parque a Teoria do Caos, que Malcolm tanto defende e estuda, e o engenheiro chefe Ray Arnold (interpretado por Samuel L. Jackson no longa), diz que ela não se aplicaria ao parque porque os dinossauros não são máquinas ou dados de computador. Por ter sua gênese artificial isso é discutível, mas o que Malcolm explica é que a teoria do caos não necessariamente afeta só seres não vivos, mas também as curvas que a natureza tem, em especial se há alguma interferência externa. Mais tarde, isso seria evoluído, como visto em Jurassic World – Reino Ameaçado, em que a natureza tende a pressionar o rumo da vida ao status quo novamente, ou seja, tende a extinguir o que deveria permanecer extinto e claramente a ação humana pode alterar isso, possivelmente de maneira só temporária, e esses conceitos todos estão presentes no livro de Crichton

As principais diferenças entre o material literário e a adaptação de Spielberg moram na persona de Malcolm, que talvez seja o mais próximo no livro de um protagonista – isso cabe no filme mais ao Grant, de Sam Neill – e também a questão da vida útil dos dinossauros, que não conseguiriam ter uma sobrevivência maior fora de ambiente controlado, obviamente para poder ter possibilidade de mais continuações. Sobre essas diferenças, há uma boa entrevista dentro da edição recente que a Editora Aleph fez, onde o autor fala sobre como foi difícil o processo de transformar o romance num roteiro, já que para fazer o livro, ele precisou abrir mão de algumas ideias, daí teve que revisitar seus esboços, resgatar ideias e propor novos rumos para a trama que seria filmada.

Há um sub-capítulo, chamado Destruindo o Mundo, ele é dos mais curtos, tem apenas três páginas, mas tem nele das melhores discussões do livro, com Malcolm dando uma bronca em Hammond que teme que suas criaturas destruam o mundo. Para o matemático, o magnata é arrogante, acreditando que seus animais artificiais são capazes de dar fim a um planeta que sobrevive a bilhões de anos e que suas intervenções não seriam capazes de mudar isso agora.

Grant comemora a queda da população do parque, uma vez que a cadeia alimentar começa a se estabelecer, para ele, o chamado equilíbrio jurássico faz um bem para o local e também para as populações dos dinossauros, uma vez que a natureza segue seu curso natural, ou ao menos tenta se adequar dessa forma. Sua conclusão de que os animais que saem dali não estão fugindo, e sim migrando é acompanhada de um sentimento bastante singelo.

O desfecho do livro não tem uma cena icônica como a briga entre os velocirraptors e T-Rex, mas ainda assim é bem fechado e condizente com o restante da leitura, com uma esperança de que a vida prosseguirá para aquelas criaturas, sem a exploração predatória do homem, mesmo daqueles munidos de boas intenções como era o idealista John Hammond. No epílogo estão todos os envolvidos no incidente Ingen prisioneiros do governo costa riquenho, ainda que sejam tratados de modo suave, e são obviamente liberados depois, já que há dinheiro envolvido, ou seja, mesmo com o rumo das criaturas sendo controlado pela Natureza, a linguagem do capital ainda prossegue universal para quem vive aquele mundo.

A ideia de Crichton em filosofar não sobre o que o homem deve ou não saber, mas sim sobre fatos que o homem simplesmente não saberá como saber é muito bem construída, e seu livro consegue aprofundar essa discussão ainda mais que o belíssimo filme que Spielberg conduziu. Ele fala abertamente que sua ideia seria de fazer um filme, mas que ficaria caro demais e portanto preferiu escrever um livro, que obviamente deu origem a um dos produtos  hollywoodianos que fez história, exatamente por ter um grande aporte em questões técnicas de efeitos digitais. Independente até das obras do cinema, Jurassic Park é um romance muito divertido, com personagens carismáticos, reais e com um clima aventuresco muito bem estabelecido desde o seu principio.

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