Resenha | Machu Picchu – Tony Belloto

machu picchu - tony bellotto

O guitarrista Tony Bellotto não achava-se cool o bastante sendo um dos fundadores de uma das maiores bandas do rock brasileiro, Os Titãs, e marido de Malu Mader, atriz, hoje quarentona, ainda com grande beleza e indefectíveis sobrancelhas expressivas. E em 1995, lançou seu primeiro romance, abrindo espaço para um novo terreno desconhecido.

Após três romances policiais com o Detetive Bellini e uma inspiração rasgada em Dashiell Hammett, Bellotto apresentou novas narrativas fora do elemento policial: BR163: Duas Histórias na Estrada (2001), seguidos de Os Insones (2007) e No Buraco (2010), todos lançados pela Companhia das Letras que lança também Macchu Picchu, seu novo romance.

A narrativa tem início no engarrafamento cotidiano da cidade de Rio de Janeiro. Um congestionamento considerado um dos maiores da história até então. Nesta cidade paralisada, avançando pouco a pouco, cada qual em seu espaço, encontram-se Zé Roberto e Chica. Um casal que tenta retornar à sua casa para comemorar mais um ano de casamento.

As vias paradas, sem nenhum movimento, repletas de tensão de trabalhadores cansados e estressados injetam nas personagens uma reflexão interna dos momentos que os levaram até esse grande engarrafamento. Metáfora da  condição humana de paralisia perante a sociedade. Através de suas reflexões, as camadas superficiais de suas personalidades se destroem, destacando-se desejos e vontades escondidas que, se expostas, podem quebrar a harmonia conquistada.

Devoto fã de Dashiell Hammett e Raymond Chandler, a prosa de Bellotto bebe diretamente da fonte da literatura policial americana do início do século, apoiada em personagens dúbios em uma trama que nem tudo é o que parece. A ironia com que analisa a sociedade em seu textos vem diretamente destes autores mas inserida em seu tempo contemporâneo. São diálogos rápidos, secos, sem medo ou vergonha de expressar até os pensamentos mais vulgares. Mantendo a linguagem em tom coloquial, como uma conversa ou confissão feita aos amigos mas que perde a força pela habilidade oscilante em narrar a história.

Bellotto tem o entusiasmo de um escritor marginal, um pós-beatnik fascinado pela literatura de suspense. Sua narrativa é escrita na velocidade de um disparo. Rápida, cheia de referências. Projeta no leitor múltiplas ideias articuladas em pouco tempo. Porém, de tão rápida carece de melhor lapidação. Como se faltasse a percepção de que, mesmo em uma prosa coloquial, há um apuro e trabalho na escrita para que ela soe natural como, em um exemplo, as narrativas de Bukowski.

A oscilação narrativa parece menos estilo do autor e maior falta de precisão ao compor. As personagens ganham pelo carisma, mantém em alta rotação a intenção da trama, sempre rápida. Mas quando caminha para o final, é  visível a ausência do apuro narrativo.

Um elemento comum na maioria de seus romances: a insuficiência em fechar a própria narrativa, desembocando-a em um clichê que centra-se no absurdo em demasia.

O romance breve é funcional na proposta de apresentar um momento na vida das personagens. Dialogando com a velocidade do contemporâneo. O engarrafamento é a crítica de um mundo veloz mas parado devido a própria evolução. Mas o impacto desejado ao fim se perde pela ausência de ritmo, anulando potenciais tramas em um desfecho sem graça.

Talvez pelo apreço que ainda nutro pela banda hoje esfacelada de Bellotto, insista como leitor de suas narrativas, esperançoso de que um dia o escritor encontre melhor equilíbrio. Afinal, em textos curtos escritos para a Veja ou o blog da editora, Bellotto produz boas crônicas, sempre apoiadas em histórias musicais. Além de ser um excelente letrista de canções como Isso e Palavras.

Falta ao autor maior sintonia de sua voz como narrador. A consciência de que para ser genuinamente simples é necessário mais apuro do que vem sendo produzido até então.