[Resenha] Meia-Noite e Vinte – Daniel Galera

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Em Barba Ensopada de Sangue, lançado em 2012, elogiado e denso romance vencedor do Prêmio São Paulo em 2013, Daniel Galera fundamentava mais uma boa obra em sua carreira, demonstrando um talento impar dentro da literatura contemporânea brasileira. Novamente em parceria com a editora Companhia das Letras, o autor lança novo romance, dessa vez concentrado na análise sobre tensões presentes no cenário atual.

Meia-Noite e Vinte se alinha com o espaço contemporâneo, situado em uma Porto Alegre quente e movimentada, devido aos protestos públicos contra aumento de tarifas. Neste cenário, um grupo de amigos se reúne relembrando os feitos da universidade para velar um dos amigos, morto em um assassinato fatídico. Se o contemporâneo sempre é um objeto difícil para a análise de qualquer meio, desenvolver uma história neste espaço também requer delicadeza e alto grau de observação, fator que a prosa do autor garante em qualidade e estilo.

A trama é focada neste grupo de amigos que estão na fase dos trinta anos de idade, vindos de feitos bem-sucedidos de um passado mistificado pela própria memória. A intenção de radiografar a geração atual apresenta personagens que cresceram na passagem do mundo analógico para o digital, extremamente conectado. Neste processo de transição, encontram-se três personagens, Aurora, Emiliano e Antero sobrevivendo numa realidade diferente daquela imaginada nos tempos áureos da juventude.

Personagens que mesmo inseridos nessa era de revolução, compartilhando sentimentos via redes sociais, conectados com conhecidos e estranhos de todo mundo, ainda se sentem incompletos, incapazes de aceitar que a vida foi diferente dos planos imaginados, tornam-se adultos que ainda vivem uma insatisfação como se não amadurecessem por completo.

A obra é narrada por estes três personagens, dando sequência temporal a fatos após a morte de Andrei, considerado um autor prodígio. Cada um deles é construído de maneira distinta mas com problemas que desembocam em um mesmo significado: a sensação insegura do presente, a urgência do contemporâneo e a falta de pilares para que se compreendam as motivações atuais de cada um, em um mundo cada vez aparentemente dividido. Diante deste cenário de modificações rápidas, os homens estão de joelhos, sem saber o que ou quem seguir em época em que tudo é reconfigurado e destruído constantemente. Apoiando-se na tecnologia e em pequenas transgressões daquilo que resta como matéria para se sentir vivo.

Se em outras obras anteriores, o autor já foi reverenciado como um autor de geração por situar seus dramas em um espaço contemporâneo focado em sentimentos internos e universais, esta nova obra dá sequência a esta afirmativa observando o comportamento da geração atual à procura de refletir no leitor a mesma insatisfação. Semelhante à radiografia composta por Fernando Sabino em Encontro Marcado – não à toa, outro autor e romance considerado como representante de uma geração com o desencantamento do universo adulto – Meia-Noite e Vinte relata a velocidade do mundo em que vivemos, em excesso de signos ao nosso redor, sem parâmetros coesos para estabelecer limites e espaços. Uma sociedade à margem de um abismo em uma história escrita sob esta pressão e velocidade de cliques e likes.

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