Resenha | No Escuro – Elizabeth Haynes

“Mas era simples assim: eu não podia fugir […] Não podia chamar a polícia, podia? Ele era um deles.”

Bendito seja aquele(a) que nunca passou por um relacionamento tóxico – aliás, sorte de quem nem está acostumado a ter esse termo no vocabulário do dia a dia. Longe de situações do tipo, muitas pessoas não fazem ideia do que é ser subestimado, rebaixado, humilhado, vampirizado por quem a paixão, ou a carência, impossibilita de se ver a verdade. Passar ileso em experiências do tipo é, absolutamente, uma benção para poucos, e com o advento da internet, e o rebaixamento da privacidade individual, vemos todo dia novos casos de relações abusivas entre namorados e cônjuges, por exemplo, popularizando-se em uma escala impressionante. Algo que, na maioria das vezes, vai muito além das sequelas de uma agressão psicológica, externalizando uma violência inesperada na provável forma de hematomas, sangue, e morte.

É o velho ditado do “só quem passou, sabe como é”. Brigas diárias, uma total falta de comunicação, medo do ridículo, medo de não ser bom o bastante… sinais da toxidade que brota do contato com alguém que se confia, mas que demonstra um comportamento digno da mais alta desconfiança entre quatro paredes – ou em qualquer lugar. Esse sentimento de paranoia é algo onipresente para a vítima, e quando se instaura no seu âmago, o estrago já está feito. É a partir dessa condição de constante desconforto psicológico que Elizabeth Haynes começa o seu primeiro romance, escolhendo o recorte mais difícil da vida de uma mulher para expressar a sensação de viver-se na escuridão das consequências mais nefastas de um entrelace amoroso. No Escuro é o relato prático de uma vulnerabilidade imposta e alimentada por quem menos se espera.

Tal como num conto de bruxas, onde o príncipe é o dragão e suas labaredas são convertidas em atos de puro caráter feminicida, uma tangente cada vez mais constante no Brasil e no mundo de 2019, a doce e bem-sucedida Catherine Bailey entra numa espiral de perturbações físicas e mentais que nunca consideramos que, um dia, poderá nos tomar de assalto também. Ninguém está livre disso, e o livro não poupa nosso medo diante de uma iminência dessas – desde a primeira página. Nas ruas e apartamentos de Londres, apegada a um policial sedutor que todas as mulheres gostariam de ter a chance de conhecer (Lee Brightman é um Dorian Grey da vida real que não atrai mulheres apenas para transar, e se apaixonar em seguida nas costas de um cavalo branco alugado), Cathy passa a degustar todas os cinquenta tons de abuso que um homem, ciente do que faz, pode expressar àquela que confia nele.

Íntimo da sua própria manipulação desvairada, sobrepondo-se a aguçada sensibilidade feminina, e aos sinais de imoralidade que ele pode deixar escapar, Lee constrói sua imagem de bom moço antes de, no período de quase um ano, arrasar com a auto confiança de Catherine. O romance então toma formas cruelmente realistas, algo que os leitores desavisados nesse universo de abusos podem considerar fantasioso, se não fosse verdade. Perseguida, afastada das amigas, e desenvolvendo transtornos obsessivos compulsivos pelo contato com o agressor, Cathy expõe claros sinais de mudanças negativas em sua personalidade, enquanto começa a se perguntar, pouco a pouco: Eu mereço ser menosprezada e assombrada mental, corporal, e sexualmente? Uma pergunta absolutamente válida, mas que muitos(as) não conseguem raciociná-la ao longo de um ciclo de violência, cinismo, e perversidade.

Nesta pesada trama de apelos universais, e intermediada por duas linhas temporais que demonstram o início e o desenrolar do calvário feminino de Catherine, de 2000 a 2004, até chegarmos as tentativas de recuperação da vítima de 2005 a 2010, traída e profundamente afetada pelos traumas inerentes aos fatos de um passado recente, Haynes faz de No Escuro um evidente laboratório da psicologia humana quando esta se encontra num intenso processo de cicatrização. Trafegando pelas mazelas intangíveis que habitam uma mulher nas condições de sua protagonista, e a importância de apoio humanitário a ela que vizinhos e amigos oferecem, a escritora britânica é um tanto óbvia e unilateral em sua narração, mas é feliz na dramatização sem apologias ou quaisquer tipos de excessos que algum leitor poderia acusar de “vitimismo” – como é muito comum, hoje em dia.

Num dos momentos mais perturbadores, e extremistas, Cathy é submetida a um dos crimes mais diabólicos que existem, assim como tantas outras mulheres que aparecem nos telejornais noturnos. Somos cúmplices então dos seus maiores e inaudíveis temores. “Hoje eu vou morrer”, ela reflete, numa danação impiedosa que a mesma não questiona se merece, afinal, ela é um lixo, um corpo horrível e magricela, um saco de pancada, como Lee sempre faz questão de repetir numa singularidade jamais perigosa para ele – até certo ponto. Não é fácil ser mulher em um mundo desses, exclama essa publicação da editora Intrínseca, e, principalmente, escrever sobre um tema tão delicado com grande familiaridade e foco, num bom exemplar dos resultados de se expor e de se superar essas toxidades alheias, cujas ocorrências, em 2019, ainda continuam em alta.

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