Resenha | No Que Acredito – Bertrand Russell

 

“[…] A preocupação da moralidade é com aquilo que o mundo deveria ser, muito mais do que como ele é.”

Bertrand Russell se fazia entendível aos ouvidos presentes. Com suas palavras acerca da natureza, do homem (coisas distintas), sobre a ciência, Deus, a moral que pode mover ou não o indivíduo e o seu social, do poder dos nossos impulsos e o que são, de fato, as virtudes atemporais favoráveis a uma vida realmente vivida, o filosofo humanista e palestrante, a favor até a morte da emancipação feminista e da globalização, e contra as guerras mundiais e o potência alienante de todas as religiões na mentalidade humana, tinha o prazer supremo de providenciar aos seus leitores e ouvintes, que viam nele uma espécie de sábio, alguns minutos de reflexão sobre os temas mencionados, em busca das verdades que possam vir a ser confirmadas pelo(a) leitor(a), ou não, a partir de um pensamento crítico honesto, livre, e bem articulado.

Mas elas custam caro, um clichê antigo e atual. Ciente de que um pensamento calado é o combustível da ignorância, e da auto destruição, Russell manteve suas atividades de cunho pacifista, e altamente independente do militarismo logo no auge da Primeira Guerra Mundial. Por conta dos debates encorajados por seus questionamentos, na universidade de Cambridge, demonstrando a verdadeira exuberância de sua dialética, sempre claro e acessível no raciocínio entre leigos e alunos, passou a ser proibido de dar palestras devido sua filosofia política regrada basicamente sobre dois impulsos básicos ao ser-humano: O criativo, que estimula a criação de algo útil sem ninguém sair perdendo com isso, e o impulso possessivo, cujo fim é sempre custoso. Prêmio Nobel em 1950, Russell acreditava na presença de ambos os estímulos em nosso DNA, mas sobretudo, punha toda sua fé nas pessoas – e nenhuma na ideia de Deus.

Nada é sagrado, quanto mais as noções bélicas, tão presentes ainda em 1925 no cenário político no qual ousava ter voz. Para o galês, o conflito era absolutamente irracional – tiro no pé da humanidade consigo mesma. Noções estas explicitamente bem conservadas neste No Que Acredito, no Brasil pela famosa Editora L&PM. Eis aqui um compêndio literário que visa reunir cinco capítulos curtos, originalmente publicados em formato de panfleto, e que tratam de maneira magistral temas de interesses universais: a natureza e o nosso papel nela (destacando que o homem faz parte intrínseca dela, e por isso não pode a ela se opor), ou ainda, através de uma prosa de extrema elucidação, que não se pode levar uma vida virtuosa se a mesma não for inspirada pelo amor, e guiada pelo conhecimento. Nisso, porém, Russell não propõe melhorar a conduta dos homens a serviço de nós mesmos. Isso seria moralismo.

A fim de expandir nossa consciência, o livro guarda aos seus momentos finais uma das frases mais célebres de um filósofo no século anterior: “A coragem deve ser democratizada antes que possa tornar os homens humanos”, diminuindo, neste caso, a influência dos medos sociais a nós, indivíduos. Ademais, Russell não propunha um caminho, mas sua filosofia apontava o estudo sobre possíveis destinos na investigação sobre a(s) múltipla(s) verdade(s) que pode(m) existir. Nesta última afirmação de grandeza incalculável para o empoderamento da sociedade, o mestre expõe sua total falta de empatia para com as regras, o policiamento, a doutrinação, o totalitarismo e as normas que podem limitar a força do pensamento crítico, e os comportamentos humanos.

Assim, não sendo um sujeito imoral unicamente por enxergar o cinismo e a hipocrisia que se escondem na moralidade cristã, por exemplo, e por isso negando-a como o ateu que foi, Russell seria, hoje, um prato cheio aos moralistas de plantão que resistem, de geração a geração, e julgam os outros com todo o imediatismo covarde de internet que conseguem juntar em seus comentários rápidos, de duas linhas, e mal embasados. Mais um achismo no mar incoerente de achismos que se transformaram as redes sociais do século XXI, fenômeno este (Ágora do pós-modernismo) que Russell não chegou a presenciar – mesmo com ele apostando na ciência como a grande provedora de conhecimento aos seus bisnetos e tataranetos do amanhã (teria ele profetizado o Google?). Com No Que Acredito nas mãos, o(a) leitor(a) precisa estar ciente do valor progressista e reflexivo desta joia da literatura, comensurável portanto em dois sentidos: Pequena no tamanho e descomunal em seu conteúdo.

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