Resenha | O Poderoso Chefão – Mario Puzo (2)

“-Você resolveu o problema dele?”, perguntou Sonny.

“-Você não o verá mais.”, respondeu Clemenza.

Tanto o livro quanto o filme O Poderoso Chefão, dois marcos do século XX guiados, respectivamente, pela caneta de Mario Puzzo e pela câmera de Francis Ford Coppola, são pura propaganda enganosa. Fato. Isso porque, em ambas as mídias, ou seja literatura e cinema, a história das famiglias do crime atuando em solo norte-americano, na distante década de 1940, é uma encenação irresistível dos tentáculos mafiosos de meia-dúzia de homens poderosíssimos para algo muito maior, e mais significativo que uma mera briga de gangsteres italianos. Por detrás de todo um mundo oculto e tenso de favores, cobranças e dívidas, há de forma intacta e vibrante pessoas com escrúpulos, cuja moral sempre fazia guiar o destino certo de uma bala, e que afinal de contas, acima da garantia dos seus poderes, queriam ver os seus parentes, e os seus protegidos, seguros para dormirem o sono dos justos, garantidos aqui pelos injustos.

Puzzo vai fundo de um jeito que o clássico filme de 1972, apenas três anos após o lançamento do livro, chega perto de conseguir alcançar, tamanha a maestria com que Coppola dirige um dos melhores filmes do Cinema. Mesmo assim, a máxima do “livro ser melhor que o filme” não é uma exceção válida, e mesmo para quem revisitou O Poderoso Chefão uma centena de vezes nas telas, é possível encontrar inúmeras possibilidades na leitura do material original que explicam, de maneiras absolutamente claras e engrandecedoras ao drama narrado, as motivações dos personagens, o que está por trás de suas ações e as consequências destas (o final da obra é ainda mais completo que o da sua adaptação cinematográfica). Se Coppola usou da mais bela e encantadora liberdade poética que o Cinema oferece para preencher as lacunas da história, na tela, Puzzo pavimenta a vida dos Corleone a modo de não deixar dúvidas sobre cada um dos passos dessa gente que não admite traições, e muito menos ser chamados de “assassinos”.

Don Corlone, o Padrinho, é o patriarca que todo homem sente vontade de ser, bem no fundo das nossas feiras de vaidades. A imortal atuação de Marlon Brando ganha ainda mais camadas psicológicas e emocionais quando o leitor é confrontado com um Don Vito Corleone nu, dissecado no livro até sentirmos o cheiro de sua alma resistente mas velha, marcada e traumatizada seja pelos triunfos que cometeu, seja pelos erros cujas lições aprendeu. Ele quer se aposentar, e no auge de uma guerra entre as famílias que mandam nos EUA, nas quais o poder das leis está sempre abaixo de cada uma delas, tenta encontrar qual dos seus filhos está à altura do cargo de Chefão dos Corleone. A trama gira em torno de sua busca um tanto trôpega pela sucessão, e como o destino fez questão de atrapalhar os rumos dessa procura quando a violência e inúmeros outros infortúnios do mundo da máfia se impõem, impiedosos feito o diabo, ao teto de vidro não só dessa gente, mas de todos os não-envolvidos ao lado honesto da vida.

Agora, em 2019, no aniversário de meio-século da data de sua publicação, o livro já pode e deve ser encarado como um aprofundamento do popular filme, vencedor de três Oscares, guardando em si todo o charme de uma época em que a América era sinônimo do paraíso das oportunidades aos bem-aventurados, refugiados e afins que vinham de todo o globo para o comércio, a malandragem, o crime – ou tudo junto. Os Corleone são narrados como intocáveis, é verdade, mas sempre na berlinda. Os poderosos ameaçados que nunca dormem em paz longe de janelas blindadas, e da certeza de que seus inimigos estão mais próximos que seus amigos mais leais. Jamais Puzzo tentou glamourizar ou redimir a máfia e seus valores, com certeza, mas simbolizou tudo de forma tão sedutora que é impossível não nos envolver com os mais célebres desdobramentos às gerações dos Corleone, num livro igualmente célebre, por natureza.

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