[Resenha] O Que Não Existe Mais – Krishna Monteiro

O Que não existe mais - Krishna Monteiro - capa

Como narrativa de menor fôlego em comparação a um romance, a análise de um conto pode se tornar delicada quando há a necessidade de inseri-lo em um contexto maior através de uma obra literária. O conto atrai o leitor de maneira diversa a de uma narrativa longa e, devido a necessidade de um mesmo livro conter contos diversos, a análise de uma obra de contos pode ser mais difícil devido a unidade temática. Como diversas leituras distintas se apresentam em um mesmo livro, cabe ao leitor se preparar para diferentes narrativas para absorvê-las em totalidade. De qualquer maneira, há grandes livros de contos que não atingem seu ápice completo devido a oscilação de qualidade interna.

A unicidade narrativa é um dos destaques de O Que Não Existe Mais, primeiro livro de contos do jornalista e diplomata Krishna Monteiro, lançado pela Tordesilhas no início do ano passado. Formado por sete narrativas breves, o livro tem prefácio assinado pela crítica Noemi Joffe, a qual desenvolve uma linha temática semelhante ao tema que abarca a obra.

É um tempo anterior e passado a referência primordial que atravessa a composição poética das narrativas. Exceto por um dos contos, todos se iniciam com uma citação, desenvolvendo um preâmbulo da história a ser lida. A narrativa de Monteiro é fluída e bem composta, movimentada por gatilhos emocionais que atingem o leitor pela sensibilidade. No conto de abertura, cujo nome é homônimo ao livro, é a memória a base para o diálogo entre um filho e um pai morto. Lembranças suficientemente fortes para recompor a trajetória do pai pelo tecido memorialístico. Em linguagem formal que mantém a segunda pessoa de tratamento, a qual demonstra o respeito do filho pelo pai, a ausência invade a narrativa.

A literatura é homenagem em As encruzilhadas do Doutor Rosa, celebrando a prosa do grande Guimarães Rosa em uma jornada labiríntica que demonstra a própria jornada da leitura do autor se envolvendo com a obra do mineiro. Tanto em Quando dormires, cantarei e Um âmbito cerrado como um sonho, as vozes narrativas são o principal elemento de impacto no leitor. O texto esconde suas intenções primordiais, eclodindo ao final quando são reveladas, bem como as personagens que as narram. Papéis que situam um momento anterior de existência que, a qual confirma o título, não existe mais.

A matéria do passado e memória nem sempre traduz boas lembranças, caso de Monte Castelo, o conto mais extenso e denso da seleção. Dividido em partes, a história transita entre a narrativa de um neto sobre o avô – e sua participação na guerra – e o conflito interno familiar entre mãe e filha. A trama sobrepõe duas memórias sensíveis, avô e neto, novamente edificando laços sanguíneos. Assim como momento anterior nem sempre é erigido sobre uma ausência trágica, em O Sudário é a eminencia da violência que configura o fim.

O conto que encerra a obra, Alma em corpo atravessada, versa sobre o próprio ofício literário em uma metalinguagem que apresenta uma contadora de histórias orais e as ondulações invisíveis de realidade e ficção dentro de uma narrativa, situada como uma arte e um fardo simultaneamente. Todas os sete contos em suas frontes distintas de trama e personagens dialogam com uma temática maior, conduzindo a obra a um significado distinto.

Com intimidade diante das palavras em boa prosa desenvolvida com precisão, O Que Não Existe Mais de Krishna Monteiro é um bonito e melancólico mosaico narrativo de momentos anteriores, inseridos entre um passado nostálgico e  lembranças amargas.

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Krishna Monteiro