Resenha | O Silêncio dos Inocentes – Thomas Harris

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Segundo romance com o Dr. Hannibal Lecter e terceiro de Thomas Harris, O Silêncio dos Inocentes, lançado em 1988, narra a história de Clarice Starling, agente em treinamento na Academia do Bureau Federal de Investigações (FBI) designada na investigação do brutal serial-killer Buffalo Bill. Preso em uma clínica, o psiquiatra é consultado para traçar o perfil psicológico do procurado assassino de cinco mulheres mortas em diferentes regiões dos Estados Unidos.

Encontrados em pequenos espaços de tempo e em diferentes margens de rios do país, os corpos das vítimas têm o mesmo padrão: mulheres grandes e nuas, em estado avançado de decomposição, com cortes nos seios e nas costas e em cujas gargantas foram colocadas pupas de uma espécie rara de mariposa. Quando se descobre que o psiquiatra canibal possui informações sobre o assassino, Starling conta com sua ajuda na investigação em troca de informações pessoais, uma análise psiquiátrica que relembra os tempos em que ele ainda era um profissional conceituado na área e não tinha sua liberdade cerceada pelas grades de ferro da clínica.

Embora se trate de uma história policial, naturalmente rápida e seca, como o barulho de um tiro, a narrativa de Thomas Harris consegue se impor através da poeticidade das ações dos personagens, principalmente as de Clarice, humanizando-a. Ela é a personagem novata que cativa pela falta de experiência. Ainda que o romance contenha a complexidade de um dos maiores vilões da prosa contemporânea, a história centra-se nela: a “caipira melhorada com um pouco de bom gosto” – assim chamada por Lecter – escolheu a carreira em razão da morte do pai, também policial. O parentesco impulsionou a agente a desempenhar um cuidado preciso com cenas de crime, ainda que não tenha um passado efetivo de atividade policial.

Compreendemos Clarice porque nos vemos nela e com ela nos identificamos. Starling não é uma agente genial, como a maioria dos personagens da literatura policial. É uma mulher comum, que se coloca no lugar das vítimas, em seus sofrimentos e até nas suas escolhas pessoais de vida para encontrar o atrativo uno que motivou o assassino no momento da captura. Na busca por Buffalo Bill, a protagonista visita a casa das vítimas, observa roupas e sapatos que usavam quando ainda eram vivas, notando características similares: são todas mulheres grandes, bonitas e donas de cútis bem-cuidadas. Também recolhe declarações de seus familiares e amigos para obter o mínimo sinal suspeito, um procedimento comum nas investigações de décadas anteriores quando a visita de casa em casa era fundamental para encontrar pistas ou depoimentos importantes, longe do conforto de escritórios policiais, delegacias e de casos resolvidos pela investigação forense nos laboratórios.

Ao se colocar no lugar das mulheres sequestradas e mortas, a personagem difere do método de Will Graham, do romance anterior de Harris, Dragão Vermelho. As tramas possuem protagonistas marcantes, porém opostos. Ambos são policiais destemidos e encorajados pela força da lei, mas enquanto Graham, por ser excêntrico, possivelmente insano e extremamente genial, encontra na mente dos sociopatas padrões indiscutíveis que o levam à solução dos casos, Starling chega ao desenlace a partir dos detalhes dessas mulheres. Isso explica por que ela, acreditando que a vítima primordial de Jame Gumb – nome original de Bill – era o seu principal descuido, chega ao louco covil do maníaco antes das equipes policiais, que nesse mesmo momento estavam a quilômetros de distância.

Com a ajuda de Hannibal, Clarice descobre a bizarra intenção do assassino. Agindo pela cobiça, não por loucura ou puro desejo de matar, Buffalo Bill, um costureiro experiente, ambiciona a pele das vítimas com a finalidade de costurar uma vestimenta com o seu couro, provando seus desígnios grotescos. O personagem é baseado em outro serial-killer de verdade, Ed Gein, o qual colecionava partes dos corpos de suas presas e que também foi fonte de inspiração para diversas figuras de obras famosas da ficção, como Norman Bates de Psicose; Patrick Bateman, de Psicopata Americano; e, claro, Leatherface, de O Massacre da Serra Elétrica, além de muitos outros personagens menores.

Jame Gumb cobiça a pele das mulheres porque deseja ser uma. Embora não se enquadre na condição da travestilidade – visto que transexuais na maioria das vezes são passivos e sem traços violentos, até mesmo por causa de sua posição oprimida pela sociedade –, ele se mostra feminilizado e com preocupação exagerada com a própria aparência. Uma figura egocêntrica, assim melhor dizendo, que centra em si seus desejos tornando a realidade fantasiosa. Por isso, o maníaco não pode ser considerado um transgênero legítimo. Isso é demonstrado na dinâmica da conceitualização dos testes psicológicos, quando Hannibal questiona o fato do assassino ter sido avaliado para realizar uma cirurgia de mudança de sexo. Um ponto importante, pois produz coerência com a realidade, já que Gumb foi recusado na triagem pelos médicos justamente por ter agredido um deles, o que denota uma personalidade violenta.

Tal é a confusão psicológica do antagonista que as mariposas em sua vida interpretam papel fundamental. A mariposa se metamorfoseia em fases distintas, assim como ele sonha se transformar em outro alguém. Na sua mente a ideia de fazer um traje com a pele das vítimas – e vesti-lo – é a maneira de aproximá-lo à natureza exuberante do inseto, um bizarro fetiche explicado pelo comportamento narcisista e, contrariamente, pela sua falta de aceitação como pessoa. Além disso, Gumb age somente à noite, o que também é explicado pelo hábito noturno das mariposas. A escolha em colecioná-las não é um acaso sem explicação lógica, mas sim definidora.

A procura pelo maníaco propicia também uma percepção maior sobre os personagens principais, os quais agem de maneira distinta na narrativa ao mesmo tempo em que são unidos por uma força maior. Clarice é a figura central do romance e agente que realiza as ações, e Hannibal, a cabeça pensante, ainda que tenha papel secundário. Essa diferença produz uma duplicidade antagônica que se completa e provoca tensão. A falta de contato físico entre eles, em razão da segurança máxima a qual o canibal foi submetido, com celas que não permitem o mínimo toque, é balanceada por uma espécie de contrato mútuo, uma relação estranha que reverbera na alta intimidade e na possível compreensão dos atos de cada um. Starling tem a confiança de Lecter porque se deixa levar por ele, pelo seu talento de adentrar na mente das pessoas e brincar com elas; ao mesmo tempo, o canibal transparece um tipo de confiança na agente federal, por esta ser uma novata esforçada, além da atração física que sente por sua presença. Juntos possuem o que toda dupla necessita em uma investigação: a química.

A adaptação do livro para os cinemas, lançada em 1991, dirigida por Jonathan Demme e estrelada por Jodie Foster e Anthony Hopkins, além de Ted Levine como Gumb, é soberba ao captar esta química tão bem. Os olhares que Clarice troca com o psiquiatra, amplificados pelas cenas em close, expressam a confiança mútua sem o uso de palavras. A cena em que Starling conta seus sonhos dos quais é acordada pelo barulho de cordeiros – o que leva ao nome do título original – gera a mesma carga dramática do livro, mostrando que suas memórias podem ser tão aterrorizantes quanto a realidade das vítimas de Buffalo Bill. O filme capta todas as nuances do texto escrito, intensificando-as por meio de interpretações primorosas. Não à toa foi o vencedor das cinco principais categorias do Oscar de 1991 (Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Filme e Melhor Diretor), a terceira e última película da história do cinema a conquistar o feito, depois de Aconteceu Naquela Noite, de 1934 e dirigido por Frank Capra, e Um Estranho no Ninho, de 1976, realizado por Miloš Forman.

Jodie Foster, Anthony Hopkins e Scott Glenn em foto de divulgação do filme

O Silêncio dos Inocentes é um dos thrillers psicológicos mais importantes para o gênero. Um exercício narrativo exemplar que conduz com maestria os aspectos da narrativa policial – drama, suspense e investigação –, dosados de maneira ímpar e intensificados pelo horror que projeta nos personagens, mostrando a essência do que há de pior no ser humano. Mais do que buscar o culpado, a narrativa procura entendê-lo. O resultado é uma leitura fluida e intrigante, equilibrando densidade e tensão até as últimas páginas.

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Texto de autoria de Karina Audi.