Resenha | O Tempo Desconjuntado – Philip K. Dick

“E se eu tivesse caído no chão, através do ônibus? Com medo, ele pensou: e se eu também tivesse deixado de existir?”

A bem da verdade, tudo começou (a se manifestar) dentro de um ônibus. A partir dali, da tentativa pueril de fechar os olhos, com toda a força do mundo, e tentar fazer com que tudo sumisse ao seu redor, forçando a realidade a obedecê-lo, Ragle Gumm não parou mais. Sua vida virou um grande ‘E se?’, tal uma folha de papel com inúmeras possibilidades origâmicas. E se ele pudesse manipular o real? E se esse real, cuja existência é indiscutível para as ‘pessoas normais’, for uma simulação, uma fachada, uma farsa elástica como uma massinha de modelar? E a pior das ideias: e se esse homem, o mais comum de todos, na família e na cidadezinha americana mais comum de todas, e que ganha a vida acertando concursos do jornal local por seguir um padrão matemático nas suas respostas, e se ele tiver descoberto, através de experimentos e confusões psicológicas, que existe algo acessível além do nosso espaço, e tempo?

Publicado no Brasil pela editora Suma de Letras, numa belíssima tradução de Bráulio Tavares e capa dura original, O Tempo Desconjuntado, um dos clássicos de Philip K. Dick, o criador do ultra cultuado Blade Runner e da espetacular coletânea Sonhos Elétricos, adaptada recentemente pela série da Amazon, não nega as inspirações mais essenciais e fundamentais do escritor americano, um dos autores mais roteirizados de Hollywood até hoje. Isso porque, através dos seus livros, geralmente curtos e repletos de idealizações típicas da ficção-científica, seu viés puramente especulativo, inventivo e sempre indo além do real, e do presente, explode e atrai e estimula a nossa criatividade individual a níveis hecatômbicos. As proporções de seus contos são gigantescas graças ao olhar aguçado de Dick para o limiar entre a verdade, nua e crua dos fatos, e as possibilidades que podem surgir dela.

Assim, o bom gosto e o bom senso do escritor nos guiam, e sempre dão o tom de suas tramas adoráveis e intrigantes, ou apenas esquisitas para muitos, particularmente situadas no limite dos questionamentos que a realidade guarda para si. Aqui, esses elementos que o destacam entre as outras mentes criativas do seu tempo estão ainda mais interessantes, além de desafiantes para qualquer escritor, já que transpor uma paranoia existencial na forma de uma narrativa tradicional e repleta de reviravoltas não é uma tarefa fácil. O ano é 1959, e nada parecia ser o que era para ninguém. Muito menos para Ragle, homem bom e honesto que passa a duvidar da verdade geral das coisas e ter um objetivo só: escapar de onde mora, e dos eventos bizarros e surreais que parecem persegui-lo.

Estaria ele ficando louco, ou tudo não passa de uma grande coincidência encenada pelo destino para desprendê-lo das normalidades? Cada vez mais convencido de que essa realidade é falsa, muito falsa, Ragle aspira e cobiça então pelo real, nem que esse ‘real’ seja apenas a sua consciência e nada, nem ninguém mais. Nessa falta de sentidos quase dostoievskiana, ele desenvolve para si uma alienação que o transporta para uma desconfiança total, muito aquém do bem estar mental que um cidadão pode ter, e que muitos apresentam (normalmente) na adolescência. É nesse período que tudo parece mudar, contra a nossa vontade, alterando nossas noções num processo doloroso para todos os envolvidos, e o que antes era sólido se fragmenta e nos assusta sem nenhum aviso prévio.

Nessa experiência literária nada menos que elucubradora, e que requer atenção e imersão total dos seus leitores corajosos, fato é que essa auto perturbação de Ragle reflete os idos da Guerra Fria que os Estados Unidos passaram, quando o medo de uma invasão soviética era enorme, causando uma insegurança generalizada no povo americano como nunca antes se viu. Junte essa instabilidade política, que reverberava diretamente nos ânimos do homem comum, com as ideias utópicas e reflexivas de Dick, e temos ai um prato cheio para PKD (como também é conhecido) destilar mais uma vez suas alegorias cheias de vida e deturpações imaginárias, por mais malucas, imprevisíveis e deliciosas que elas acabam sendo, do início ao fim.

A partir de que ponto alguém merece ser considerado um lunático? Vale a pena cercar-se apenas do que é bom, e deixar de fora o indesejável? Entre essas e outras perguntas, já próximo de seus momentos finais, O Tempo Desconjuntado evidencia, sem mais o uso de metáforas e com grande objetividade, as consequências claras (ainda que contextuais, a história) do desapego voluntário de um homem as camadas reais da sua vida, explorando o custo psicológico e emocional desse auto engano que parece infectar Ragle dia após dia, através de causas um tanto surrealistas, e porque não epifânicas, e que afirmam Dick como um dos mestres do século XX mais prolíficos do seu gênero literário – e que continua a migrar, com suas histórias, para todas as mídias, fascinando leitores e espectadores mundo afora, sem data para que esse encantamento acabe.

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