Resenha | O Torreão – Jennifer Egan

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Jennifer Egan pode ser considerada o modelo da escritora pós-moderna: seu conto A Caixa Preta foi publicado no twitter e seus romances escapam as características tradicionais do gênero, se utilizando de diversas vozes, formatos e recortes para contar histórias que se sobrepõem e se espelham. Egan é experimental, teórica e bastante premiada (seu livro A Visita Cruel do Tempo ganhou o Pulitzer de 2011), mas ainda assim sua narrativa é fluída, divertida, quase pop e nada hermética.

O Torreão tem duas linhas narrativas distintas: a primeira se centra em Danny, um homem um tanto perdido, mas bastante “descolado”que sai de Nova York para trabalhar no castelo de seu primo em algum país não identificado do leste europeu. Anos antes, quando eram adolescentes, Danny jogou o primo dentro de um lago em uma caverna e o deixou para morrer e começa a descobrir que a experiência pode te-lo deixado tão traumatizado quanto a vítima. A segunda história é a de Ray, um presidiário que, descobrimos, está escrevendo a história de Danny em uma oficina de escrita criativa na prisão e acaba se apaixonando pela professora.

As duas histórias se espelham e se confundem e Egan costura tudo tão habilmente que é difícil saber o que é realidade, ficção, delírio ou sonho. É ainda mais difícil saber qual a semente de realidade na ficção e o que na realidade é mentira, teatro, ficção. A escritora conta duas histórias envolventes e misteriosas, ao mesmo tempo que reflete sobre seu próprio ofício de contadora de histórias e criadora de mundos.

Essa habilidade de unir erudição e entretenimento é o que torna a prosa de Egan tão rica e, de novo, tão pós moderna. Ela escreve com linguagem corrente, acessível, seus personagens falam como pessoas de fato falam no cotidiano, ao mesmo tempo, essa escrita leve é permeada de questionamentos filosóficos profundos, a respeito da natureza do romance, das escolhas dos seres humanos, da culpa e da loucura. Existe um fundo teórico claro na escritora, mas ela nunca cita Adorno ou Freud, ela apenas insere esses conhecimentos em personagens complexos, redondos e bem construídos.

Todos os personagens em O Torreão são, assim como o próprio livro, ambíguos. O leitor nunca sabe exatamente quem são essas pessoas, se elas estão dizendo a verdade ou não, se são reais ou inventadas. São seres com uma moral duvidosa, que fizeram escolhas erradas e que podem ser pura e simplesmente crueis, bastante parecidos com seres humanos de verdade. A realidade de seus personagens acaba criando mais um paradoxo em uma escritora já tão cheia deles: Egan foge ao realismo, seu romance é pouquíssimo naturalista e, no entanto, seus personagens estão firmemente ancorados na realidade, fornecendo um contrapeso ao experimentalismo formal. Além da realidade dos personagens ela insere detalhes cotidianos, como celulares e antenas parabólicas que dão dimensão às histórias, evitando que tudo pareça um grande delírio.

Ao contar a história de um homem que conta uma história e contar também essa história, Jennifer Egan fala de uma série de coisas. Seu livro é sobre o ato de escrever, sobre se apaixonar, sobre estar à beira da loucura e da perda de identidade, mas no fundo ela fala de uma coisa só: o ser humano como narrativa de si mesmo. Todos os personagens de O Torreão estão em busca de uma narrativa que os defina, de uma história que possam contar para o mundo e assim se sentirem menos perdidos e inadequados, cada um deseja fazer sentido de suas próprias escolhas transformando-as em narrativa coerente, dando à própria história começo, meio e fim para que possam conviver com ela. Mas a fluídez do mundo moderno, refletida na escrita da autora, nega isso a todos eles e o que temos são pessoas flutuantes, perdidas em um mundo meio real, meio de sonho, incapazes de definirem quem são. Isso tudo se resume no próprio torreão: um lugar fora do tempo e do espaço, em um país impossível perdido no meio do leste europeu, do tipo que provavelmente muda suas fronteiras a cada 5 anos.

A identidade pós-moderna é um dos temas mais áridos de que é possível tratar, mas aqui isso se reflete em narrativas fluídas, interessantes, com reviravoltas eficientes e um bom ritmo. O talento excepcional de Egan é justamente condensar temas dificílimos em livros palatáveis, quase pop, de uma forma que talvez só encontre paralelo em Jonathan Safran Foer. Ao experimentar com a linguagem, trazer referências e se permitir ser comercial, Jennifer Egan entrega um livro maravilhoso e apresenta as possibilidades mais interessantes da literatura contemporânea.

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Texto de autoria de Isadora Sinay.