Resenha | Pesadelos Terríveis – Jorge Valpaços

Roleplaying Game ou simplesmente RPG é uma forma moderna de se contar histórias de modo coletivo que surgiu na década de 1970 inspirado em boardgames de fantasia medieval. De lá para cá, muitos RPGs surgiram, com sistemas de regras e ambientações das mais variadas. Assim, qualquer tipo de história pode ser contada durante o jogo, desde a fantasia medieval até a ficção científica. Um dos gêneros mais populares de RPG no Brasil nos anos 1990 foi o chamado “horror gótico”, que perdeu seu espaço no início do século para o Sistema D20 – do mundialmente famoso Dungeons & Dragons. Com a hegemonia dos sistemas baseados em D&D, o horror e a sua forma narrativa com menos regras e jogadas de dados foi aos poucos sumindo do mercado nacional. O mercado de RPGs  no Brasil, ao contrário do que algumas pessoas chegaram a preconizar anos atrás, apresenta hoje espaço para a mais variada gama de títulos. Com a falta de traduções dos maiores RPGs do mundo (como Dungeons & Dragons), editoras menores preencheram o vácuo deixado e proliferaram títulos cada vez melhores. Mas os títulos de horror ainda são escassos frente à variada gama de RPGs de aventura.

Ocupando esse espaço, a AVEC Editora lança Pesadelos Terríveis, de Jorge Valpaços, um jogo narrativo muito diferente dos RPGs mais populares do momento. Resgatando a atmosfera dos jogos de “horror pessoal” dos anos 1990, Pesadelos Terríveis não trata de aventureiros em busca de fama e glória, nem de heróis lutando pelo que é certo. Esse é um jogo onde as lutas são pessoais, intimistas e quase sempre impossíveis de se vencer. Os jogadores são convidados a criar personagens que enfrentarão seus próprios pesadelos, sem nenhuma chance de vitória gloriosa.

Baseado na HQ Beladona, de Ana Recalde e Denis Mello, o livro expande o universo da graphic novel de uma forma diferente do que o habitual: seus cenários e personagens não são exatamente utilizados no jogo. Ao contrário, os jogadores são encorajados a criarem suas próprias narrativas baseado na história de Samantha, mas sem qualquer ligação além disso. Embora o autor deixe claro no início do livro que é possível jogá-lo sem conhecer a história em quadrinhos, durante a leitura fica evidente que é, sim, importante conhecer o universo. Aliás, o título presente na ficha de personagem é “Beladona: Pesadelos Terríveis”, o que nos faz questionar o motivo de não o ser na capa do livro.

O jogo narrativo pode contar com apenas dois jogadores, sendo um o narrador e o outro o sonhador, embora mais jogadores possam participar como sonhadores também. Juntos, narrador e sonhadores irão construir a narrativa, criar o cenário e desenvolver o conto. Os personagens devem ser pensados de forma a terem um passado, um presente e uma aspiração para o futuro, com seus traços e traumas (psicológicos ou físicos) bem definidos. A ficha de personagem é muito mais do que uma simples tabela com números a preencher: aqui o jogador deve usar sua imaginação e descrever suas características. Não existem tabelas ou listas de traços, traumas ou poderes: os jogadores e o narrador devem entrar em comum acordo sobre sua criação. Por outro lado, existem caixas de texto exemplificando cada detalhe da criação de personagens, resolução de conflitos e inclusive bastidores da criação das regras. As jogadas de dados são muito raras e servem para decidir um “desafio”, no qual o jogador pode controlar a própria trama do conto caso ganhe, assumindo por alguns momentos o papel do narrador.

A maior parte do livro trata de descrever como funciona o Mundo dos Pesadelos e sua conexão com o Nosso Mundo. Os personagens dos jogadores transitam por esses dois universos, tendo diferentes aparências entre eles. Assim, um tímido funcionário público no Nosso Mundo pode ser um ser terrível no Mundo dos Pesadelos. Os temas são bastante pesados, e recomenda-se inclusive o uso de uma “palavra de segurança” caso alguém sinta-se desconfortável demais. Os temas a se abordar são bastante perturbadores e desesperançosos, o que pode ser um problema para quem não está acostumado com jogos narrativos de horror pessoal. Quem gosta do aspecto game do RPG pode também não apreciar Pesadelos Terríveis, já que seu foco está mais voltado para o roleplay, ou seja, mais interpretação e solução de conflitos através de narrativa e imaginação do que regras e rolagens de dados.

O livro tem belíssimas – e perturbadoras – ilustrações de Denis Mello, mesclando entre aquelas retiradas da HQ e artes originais para o jogo. Sua capa cartonada com reserva de verniz é muito bonita, e o miolo com gramatura maior que o normal para livros do tipo garantem uma excelente qualidade ao material. Contos da autora de Beladona abrem e encerram o volume, garantindo a atmosfera dos pesadelos na mente dos leitores. Entretanto, mesmo com a alta qualidade gráfica, o livro peca em alguns momentos ao confundir jogador e personagem ou ao sugerir que sejam usados traumas pessoais do leitor na narrativa. Essa forma demasiadamente intimista de se jogar pode agravar ainda mais possíveis problemas que um ou outro jogador possa ter e, portanto, deveria ser desencorajada. Um certo distanciamento entre jogador e personagem deve ser necessário em qualquer RPG, até mesmo para evitar problemas de entendimento do jogo pelo público leigo, que no passado já o responsabilizou por bruxaria, satanismo e até mesmo crimes que nunca tiveram real ligação com o hobby. O discernimento é necessário, e vai muito além da classificação indicativa para maiores de 18 anos na capa do livro. Pesadelos Terríveis é um jogo para quem quer testar os limites de seus próprios medos.

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