[Resenha] Pulso – Julian Barnes

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Pulso, livro de contos do britânico Julian Barnes, publicado pela editora Rocco, traz uma coleção de histórias onde o amor é o tema central da sua obra. Ou sua antítese, a solidão. Pulso retrata o cotidiano dos relacionamentos, sejam eles curtos ou duradouros, o sentimento de unidade e coesão, ou o contrário disso, são objeto de estudo por Barnes ao longo de cada página.

Ao longo de sua leitura, Pulso se mostra como um relato contundente de nossa época, narrando ao longo de 14 contos, pequenos e grandes casos de relações entre velhos e jovens amantes, amigos e as demais pessoas que nos cercam. Cada conto traz um forte peso interno, denotando o esmero do autor em trazer reflexões e críticas no seu texto não tão visíveis e acessíveis ao leitor desatento. Ainda assim, mesmo em sua primeira camada, Barnes se mostra um exímio e sofisticado contador de histórias.

Barnes abre o livro com O Vento Leste, o conto traz a história de um corretor imobiliário que se envolve com uma misteriosa garçonete estrangeira. A narrativa se desenvolve com o protagonista querendo se aprofundar nessa relação e saber um pouco mais sobre o passado da mulher com quem está se envolvendo. Barnes denota sensibilidade ao retratar a fragilidade de um relacionamento, como a busca por uma definição pode levar a acabar com ela.

Ao longo do livro, nos deparamos com quatro contos intitulados Na casa de Phil e Joanna, onde o autor retrata um típico jantar de amigos regados a álcool e cigarros envoltos em discussões sobre política, questões sociais e comportamentais. O texto é basicamente uma sequência de diálogos, rápido e natural. Os quatros contos são ágeis e  repletos de um humor sarcástico, tão presente nos ingleses.

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Na cama com Updike, somos apresentados a duas experientes escritoras e grandes amigas, que passam o conto relembrando de suas carreiras e como alcançaram o tão almejado sucesso. Ao longo da narrativa, Barnes cria uma tensão entre as duas que parece a ponto de explodir a qualquer momento, mas possivelmente, devido a educação britânica de ambas, nunca acontece. O clima de rivalidade segue ao longo do texto, mas as duas escritoras, por demasiada cortesia e a amizade entre elas, não conseguem expor suas críticas ou julgamentos. Próximo do fim da primeira metade do livro, Barnes reúne uma sequência de textos que abordam o relacionamento conjugal, direta ou indiretamente. A rotina dos casais é o cerne desses últimos contos, seja para superar dificuldade ou revivendo antigas lembranças.

A segunda metade é o ponto alto do livro. No primeiro conto, O Retratista, conhecemos um pintor mudo que se comunica apenas através da escrita. A indiferença é o tema central do conto. Delicado e pungente. Já em Harmonia, somos apresentados a um médico que usa métodos alternativos para curar a cegueira de uma jovem e virtuosa pianista. Barnes alfineta o conservadorismo de uma sociedade desinformada que não aceita com bons olhos o progresso científico.

Carcassonne, traz Barnes contando um pouco do amor de Giusseppe Garibaldi e Anita, conhecidos no Brasil por ter lutado na Guerra Farroupilha. O conto fala um pouco sobre o amor fulminante que pode se abater sobre duas pessoas, e que mesmo após tanto tempo, ambos continuam se amando. Barnes sabe trabalhar bem a reconstrução histórica desses personagens de maneira peculiar e pessoal. Cumplicidade e Pulso, ao lado do já citado Carcassonne retomam o amor, mas Pulso sem dúvida merece um destaque maior, retratando as intimidades e as dificuldades trazidas num relacionamento e os limites que podemos suportar.

Pulso é uma coletânea interessante sobre a fragilidade das amizades, da confiança, amor e da vida. Apesar do teor melancólico, o autor consegue proporcionar uma dose de humor irônico em cada página.

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