Resenha | Quem é Você, Alasca? – John Green

John Green, o autor do famoso A Culpa é das Estrelas, não é um gênio visionário e criativo, tal o marketing dos seus livros costuma indicar. Ele na verdade passa longe dessas qualidades, raras e grandiloquentes a quem as merece, mas é a prova, junto de outros inúmeros autores oportunistas de hoje em dia, que foco é tudo – e mais um pouco – para ser bem-sucedido. Foco absoluto em seu público-alvo, adolescentes que só leem livros de entendimento óbvio e escritos (lê-se: programados) na linguagem semi informal que eles falam, numa carreira sensacionalista baseada em hype, sucessos imediatos e muita publicidade, regendo uma produção em escala industrial de romances água com açúcar que só não são contos de fada assumidos, porque hoje em dia eles saíram da moda. Só que não.

Green virou especialista em reposicionar príncipes e princesas em outros lugares, além de castelos e masmorras. Agora, eles e elas, velhos arquétipos sob novas roupagens destituídas de delírio ou poesia, encontram-se em shopping centers, salas de aula do ensino médio, quartos bagunçados, universidades, lugarejos típicos da geração dos millennials para quem o escritor de Cidades de Papel escreve, mas o faz subestimando a inteligência e o poder de interpretação nunca testado desses jovens que adoram suas historinhas inofensivas. Quem é Você, Alasca? , publicado pela Editora Intrínseca, serve para nos provar tudo isso. Uma publicação curiosa por usar e abusar do seu realismo jovem contemporâneo, para ser o mais banal e genérico dos livros. Nem J.K. Rowling conseguiu isso com seus últimos Harry Potter, e olha que ela tentou até o fim.

Temos aqui uma história que se torna popular por ser extraordinariamente simples, e objetivada a quem ela é escrita. Seus personagens refletem seus jovens leitores, adolescentes que pensam conhecer o mundo por estarem constantemente conectados com a internet e seus algoritmos manipuladores, ou ainda, como é o caso aqui, um bando de estudantes em colisão num alojamento conturbado, com seus planos, seus namoricos e a violência que cometem uns com os outros dando o tom de uma leitura fraca, quebradiça, previsível ao cubo e cínica, rodeando fatos e relatos sem conseguir criar tensão alguma, criando pequenos clímaces fajutos que nunca funcionam, e que nunca fazem a história, então, acontecer ou tornar-se remotamente interessante.

A começar pela personagem título, alguém absolutamente desprezível devido o modo como o autor a posiciona. Alasca é uma garota de personalidade forte, feminista e decidida cuja aparente complexidade jamais é explorada por Green, em desdobramentos literários praticamente amadores para descrever a garota, e seus amigos, ficantes e professores no internato de Culver Creek, nos Estados Unidos. Alasca chega a ser muito mais interessante que o próprio protagonista do livro, o confuso e apático Miles Halter. Ela e Miles formam o casal improvável, mas que sabemos que ficará junto no final, cujo tratamento de Green para seu enlace é tão fraco e raquítico quanto o próprio Miles, magro como só. Sempre contando com outras pessoas da sua idade para sobreviver, superar suas dúvidas existenciais que o perturbam, e descolar cigarros para fumar escondido no banheiro, nessa difícil e inesquecível fase da adolescência.

Existem livros que se apoiam no simbólico, no emblemático para se dar bem com seu público, entregando um discurso gratuito e sendo levemente ousados ao longo das páginas para render certas discussões, quem sabe até alguma polêmica comercialmente saudável. John Green também domina a arte da persuasão como ninguém, sendo como escritor um bom publicitário, muitas vezes com a sensibilidade de um micro-ondas, e entregando com Quem é Você, Alasca? uma espécie de homenagem quase sem inspiração criativa alguma e pouco marcante ao amor juvenil, a tudo o que habita mentes e corações de jovens em processo de descobrimento e questionamento amplos. Ele poderia ter mandado melhor nessa empreitada, caso tenha o talento que nunca demonstrou, mas aparentemente para seus fiéis seguidores, leituras do tipo são o suficiente para satisfazer seu senso-crítico alimentado por Green, e outros oportunistas de plantão.

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