Resenha | A Revolta de Atlas – Ayn Rand

Atlas, ou Atlante, é um titã presente na mitologia grega que foi sentenciado por Zeus a sustentar os céus em seus próprios ombros por toda a eternidade. A imagem de Atlas com um globo nas costas é um ícone da civilização ocidental, retratada em esculturas, pinturas, literatura e até mesmo no nosso cotidiano. Quem nunca já comparou alguma obrigação com o fato de parecer carregar o mundo nas costas?

O título da obra de Ayn Rand é bastante elucidativo sobre o enredo da obra: em um fictício mundo formado por países que são repúblicas “populares” e pobres, os Estados Unidos são o último país aos moldes capitalistas, mas com uma sociedade em crise moral, cultural e econômica, onde artistas renomados, empresários visionários e operários considerados competentes simplesmente cansam de “carregar o mundo nas costas” e desaparecem da noite para o dia, um a um, como se fosse abduzidos e deixassem o planeta.

Em toda a obra nos deparamos com basicamente dois tipos de personagens: os empresários, artistas, professores, filósofos, operários, cientistas e outras categorias, que são mostrados como produtivos, inovadores, e competentes versus empresários incompetentes, cientistas invejosos, políticos corruptos e vários outros tipos de pessoas que agem como sangues-suga da primeira categoria de pessoas.

Parece bastante maniqueísta e várias pessoas consideram que esse “preto no branco” induz a narrativa à hipocrisia e até mesmo à sociopatia. É bastante incômodo identificar mais de nossas atitudes na categoria das personagens invejosas e corruptas do que das personagens virtuosas e honestas, e acredite, isso acontece o tempo todo na obra.

Não existem personagens na “zona cinza”, o enredo não funciona para o leitor que procura auto-ajuda ou uma diversão descompromissada. O texto é denso, às vezes chato… e não chato por ser massante (ainda que tenham trechos bastante arrastados de descrições sinestésicas de personagens), mas por refutar várias atitudes tidas como “altruístas”, como diminuir a passagem ferroviária e colocar linhas em áreas pouco lucrativas em nome do povo, mas derrubando a qualidade do serviço e causando acidentes ou mesmo socializar a patente de uma empresa para acabar com o monopólio dela sobre sua própria criação, para que as empresas que não são tão produtivas possam concorrer em igualdade de oportunidades.

Ayn Rand foi uma filósofa russa radicada nos Estados Unidos, fugindo do Stalinismo que desenvolveu um sistema filosófico chamado de Objetivismo. No decorrer da trama de A Revolta de Atlas, ela faz duras críticas ao pensamento de que tudo se pode fazer em nome do povo, penalizando a criatividade e inovação de pessoas que esperam ser remuneradas por seu esforço, trabalho, investimento, que nivela as pessoas por baixo, onde ser mais produtivo é considerado um pecado já que o vizinho não o é… afinal busca-se uma sociedade igualitária, mesmo que existam as pessoas mais iguais que as outras, no caso os amigos dos governantes e os próprios.

Alguns trechos são icônicos, como este:

O senhor realmente pensava que a gente queria que essas leis fossem observadas? – Indagou o Dr. Ferris – Nós queremos que sejam desrespeitadas. É melhor o senhor entender direitinho que não somos escoteiros, não vivemos numa época de gestos nobres. Queremos é poder e estamos jogando para valer. Vocês estão jogando de brincadeira, mas nós sabemos como é que se joga o jogo, e é melhor o senhor aprender. É impossível governar homens honestos. O único poder que qualquer governo tem é o de reprimir criminosos. Bem, então, se não temos criminosos o bastante, o jeito é criá-los. E fazer leis que proíbem tanta coisa que se torna impossível viver sem violar alguma. Quem vai querer um país cheio de cidadãos que respeitam as leis? O que se vai ganhar com isso? Mas basta criar leis que não podem ser cumpridas nem objetivamente interpretadas, leis que é impossível fazer com que sejam cumpridas a rigor, e pronto! Temos um país repleto de pessoas que violam a lei, e então é só faturar em cima dos culpados. O sistema é esse, Sr. Rearden, são essas as regras do jogo. E, assim que aprendê-las, vai ser muito mais fácil lidar com o senhor.

A Revolta de Atlas tem texto bastante atual e às vezes parece profético. Apesar de ter sido escrito em 1957, pode-se dizer que o livro trata de uma distopia cada vez mais próxima de nossa realidade, capaz de mudar ideais de alguns leitores e de causar ojeriza em outros.

Não se assuste com o tamanho (1.232 páginas em 3 volumes): em tempos em que o meio termo e a relativização dominam todos os aspectos de nossa vida, é salutar poder ler obras como essa, que incomodam pelo bem ou pelo mal.

Se você gostará de ler? Não sei… quem é John Galt afinal?

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Texto de autoria de Robson Rossi.