Resenha | Salobre – Thiago Scarlata

Salobre, do poeta carioca Thiago Scarlata, publicado pela Editora Urutau, reúne poemas que buscam alcançar o tempero das coisas; mas não qualquer sabor associado ao acaso, Scarlata preocupa-se em expor aquele gosto salgado que ganha a boca. Versos áridos curtos e longos tomam o paladar do leitor e transformam a leitura em também experiência gastronômica, como uma metáfora do amargo, do forte, do pungente efeito que o mundo tem de nos surpreender, mas não ao poeta, este cientista.

Em “Salobre” temos uma predominância de versos curtos que primam pela concisão da linguagem, como se fossem uma pitadinha de sal na língua – aquela pequena dose capaz de temperar toda a refeição. Versos curtos criam um ritmo mais forte e vigoroso na leitura; as imagens poéticas se formam com mais facilidade e ganham os ouvintes de tal poesia. Aliás, poesia perfeita para ser declamada, os versos de Scarlata funcionam tanto por sua concisão e excelente força vocabular, como também pelas metáforas que reúnem, num efeito de mostrar o não dito, aquilo que não cabe inteiro no poema. Scarlata faz isso muito bem: esconde na simplicidade (e todos sabemos que simplicidade é o mais difícil na escrita).

Mas o poeta não vive apenas de versos curtos. Temos outros poemas de frases mais longas com o recurso de enjambement (técnica onde um verso é lido como continuação do anterior), que Scarlata utiliza em descrições e odisseias do Eu Lírico. Em “tutorial para caçar baleias”, por exemplo, o poeta traz o máximo de precisão ao narrar uma caça de baleias através de uma alternância de versos maiores e menores, o que também visa expor o movimento de caça e fuga do animal. O final é chocante.

Dividido em três partes, a saber: soro, salário e salinas, o livro reúne intensidades diferentes de sabor. A primeira parte é mais forte e reúne poemas que tratam de assuntos amargos com um certo descontentamento com o mundo (ou com o homem), poemas sobre o que tentamos afastar, mas que por vezes retornam a nós. Em “Salário”, o tema principal são as relações do trabalhador com o seu ganha pão. Scarlata nos faz refletir sobre aquelas dores diárias que cicatrizam pela constância e nos tornam, pouco-a-pouco, mais máquinas e menos poetas. São poemas-protesto, em maioria. “Salinas”, a terceira parte, reúne versos mais reflexivos, distintos e metalinguísticos, que dão conta da poesia que busca tocar o novo do mundo ou filosofar sobre aquilo que nos rodeia e que perdemos de vista frente à maquinação do cotidiano.

“Salobre” é um livro bem resolvido com um fluxo poético notável e versos precisos, certeiros, sem nada em excesso. Este terceiro livro de Thiago Scarlata mostra um poeta consciente de sua poesia e seguro com o efeito que deseja transmitir; o efeito do sal, do amargo, do poema-que-arde-e-tempera-a-boca e transmite, vibra, e nos impressiona. Livro muito recomendado. Mas leia devagar, hipertensão é um risco.

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