Resenha | Sargento Getúlio – João Ubaldo Ribeiro

“Mas dentro da igreja eu não atirava, porque deixava de ser igreja, não se pode matar dentro da igreja, mata-se lá fora.”

Para quem Getúlio narra sua estória? Ninguém sabe. Talvez para seu criador, João Ubaldo Ribeiro, que nunca escreveu para si, e sim para nós. Membro da Academia Brasileira de Letras, é de um dos nossos geniais orgulhos nacionais, tendo virado lenda póstuma entre 2014, e a eternidade. Como legado, eis então a sua prosa mais consagrada, Sargento Getúlio, adaptado ao Cinema no ótimo filme de 1983, com Lima Duarte encarnando, numa entrega total do ator, como de praxe, um dos mais popularmente controversos e polêmicos personagens da literatura brasileira. Em ambas as mídias, a história de Ubaldo ignora o tempo em que acontece, aqui nos anos 40, preferindo focar-se nos principais e mais fortes e irônicos aspectos políticos, e sociais da vida nordestina, e do Brasil, enquanto país de mil facetas, lendas e valores regionais.

Uma fábula perturbada por suas questões éticas, e políticas, que assombram cada uma das ações, e da própria voz do personagem título. Sargento da Polícia Militar em Aracaju, Sergipe, Getúlio mora no mundo, e vê o nordeste inteiro como a rua onde cresceu, casou, foi corneado, matou quem o corneou, e matou muito mais. Agora, servindo como ‘cabo eleitoral’ de um novo político de Aracaju, o velho Getúlio, já amargo e pelejado, é incumbido de escoltar um prisioneiro político sem nome (bixiguento, geralmente) do sertão de Paulo Afonso, na Bahia, até de volta a Aracaju, mais precisamente até a Barra dos Coqueiros, no litoral do estado sergipano. E no que parecia ser fácil no começo para a alma itinerante, mostra-se uma viagem de retorno ao estado de Sergipe tão custosa, e lazarenta, pra macho nenhum botar defeito.

A cabo de levar sua entrega, a autoridade e seu inseparável amigo, Amaro, percorrem as veredas de um Brasil profundo e habitado por figuras típicas de paragens sem leis, onde primeiro vem a violência e depois a humanidade – sem jamais contar com a civilidade cínica das metrópoles. Na verdade, Ubaldo Ribeiro não promove somente, nesta obra-prima traduzida para diversos idiomas, a folclorização bruta do sertanejo, permitindo-se investigar as raízes de um povo e do seu imaginário, adoravelmente rurais, mas ainda, o choque entre um mundo agreste e arcaico com a modernização de um Brasil urbano, e em constantes mudanças sociais que não atingem facilmente seus tártaros interiores. Realidades de um mesmo estado, falando (na teoria) o mesmo idioma, mas que Getúlio desconhece. Sua língua-mãe é a faca, a bala, seu código de ética imutável. O cabra nunca que usaria uma gravata – ao bicho solto, é coleira.

Entre as contradições, as fragilidades, as brigas e as virtudes de Getúlio, o jagunço sertanejo para quem missão dada é missão cumprida, e mesmo após a morte se necessário for, podemos analisar o retrato de um povo submetido a situações extremas, cuja responsabilidade ética por seus atos responde, na maioria das vezes, aqui, apenas a questões de sobrevivência. Pois, em terra de urubu, cangaceiro e padres perdidos em meio a violência errante, quem poderá julgar a brutalidade que os homens usam para cumprir com os seus mandatos? Getúlio não entende de política, apenas faz o seu dever e acabou. Seu primitivismo é usado como escudo aos inimigos. Como motor para dar o próximo passo. Como atestado de masculinidade. Como a resposta rústica, enfim, para o Ser ou Não Ser de Shakespeare.

Se a Barra dos Coqueiros é o Eldorado do sargento, penando com o seu preso a tiracolo, e que chega até a ser violentado, mais de uma vez, por aquele que piedade fora de uma igreja nunca conheceu, é o próprio nordeste a figura crucial do livro. O jeito que Ubaldo descreve seus caminhos, suas pedras, seu céu, sua comida é impressionante, de cair o queixo diante de um esplendor característico estendido em uma escrita simplesmente invejável. Mas nada que se compare ao esplendor narrativo de Sargento Getúlio: construído a partir de uma espécie de monólogo de grande dinamismo e inventividade literária, em oito capítulos, formula-se assim a fala ininterrupta e criativa do protagonista e seus conterrâneos, conhecendo-se, através dela, o começo e o fim das causas e consequências dessa inesquecível odisseia pelo sertão abissal de um Brasil lendário.

O próprio vocabulário vasto que o livro incorpora em sua linguagem, por vezes de difícil assimilação para quem não está integrado no linguajar e cultura locais, e seus vocábulos, é forjado por uma ressonância e um brilhantismo semântico sem-igual. Portanto, da mesma forma que Ubaldo não procurou vilanizar ou redimir essas figuras de um nordeste implacável, mas dar-lhes uma dimensão mais ética e política para engajar o leitor à reflexão, e ao debate que motivam e sucedem as suas ações, as palavras que o escritor usa não deixam dúvidas: há uma consciência regional aqui enorme, e explícita em todo o corpo do romance, mas principalmente, em um dos seus melhores momentos. Quando confrontado pela moralidade (questionável) de um padre a abandonar sua violenta diligência, a intensidade da resposta de Getúlio ao sacerdote é um daqueles raros momentos que não saem da memória de nenhum(a), repito, nenhum(a) leitor(a). Ubaldo não é para amadores.

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