[Resenha] Space Opera – Odisseias Fantásticas Além da Fronteira Final

space opera - capa

Quem nunca imaginou viajar em uma nave estelar e explorar novos mundos? Lutar contra um temido Império Galáctico, destruir implacáveis robôs que tentam exterminar a humanidade ou travar uma luta mortal contra um arqui-inimigo usando armas do futuro?
(fonte: quarta capa do livro)

O termo space opera, criado por analogia às soap operas (as telenovelas norte-americanas), foi usado originalmente de modo pejorativo para designar estórias que se passavam em cenários espaciais, muitas vezes meras adaptações de outras tramas de guerra ou faroeste, sem aproveitar nelas a ficção científica em si. A partir dos anos 70, Brian Aldiss reabilitou o termo, que passou a ser utilizado para se referenciar a estórias de sci-fi, ambientadas no espaço ou em outros mundos, de teor aventuresco, com heróis corajosos e carismáticos. Star Wars é um ótimo exemplo dessa mudança de enfoque e de tratamento desse tipo de narrativa.

Hugo Vera e Larissa Caruso reuniram sete autores além de si próprios nesta coletânea: Gerson Lodi-Ribeiro, Flávio Medeiros Jr., Clinton Davisson, Maria Helena Bandeira, Jorge Luiz Calife, Letícia Velásquez, Marcelo Jacinto Ribeiro. Até me perguntei se teria sido proposital, mas é interessante notar que o conto que abre o livro – No amor e na Guerra?, de Lodi-Ribeiro – é, no meu entender, o mais fraco; enquanto que o último – Pendão de Esperança, de Flávio Medeiros Jr. – o encerra com chave de ouro (perdão pelo clichê).

O primeiro sofre de um problema que se percebe com frequência em estórias de ficção científica – não apenas de escritores nacionais: o autor parece se esquecer de desenvolver a trama e os personagens, dando importância demasiada à descrição dos elementos sci-fi da estória, o que, ao invés de enriquecê-la, a empobrece. Em outros contos do livro, o problema ocorre também, mas com menor intensidade. E nesta narrativa, há ainda o agravante de ter sido escrita em primeira pessoa, já que não há justificativa para as “digressões expositivas” do narrador. Caso fosse um narrador demiúrgico, talvez o excesso de explanações sobre o universo da estória não soaria tão inconveniente e tedioso. O texto é íntegro, sem inconsistências, contudo é um início difícil. Alguns leitores menos persistentes talvez não se animem a ler os demais – o que é uma pena, já que o de Medeiros Jr. é uma leitura bastante prazerosa.

Como se diz no cinema, Pendão de Esperança se inicia ‘in media res’, ou seja, no meio da ação, com alarmes soando e a sensação de perigo iminente. E esse início tenso – tática utilizada em várias séries de tv – é o responsável por prender imediatamente a atenção do leitor, que fica curioso por compreender o que está ocorrendo. A temática da estória é bastante original e os fãs de Star Trek irão reconhecer premissas de alguns filmes da série. O ambiente onde se passa a estória é bastante similar ao da Enterprise. Ponto a favor, já que tanto a série quanto sua nave praticamente já fazem parte do imaginário popular, deixando o leitor – mesmo o não-trekker – bem à vontade. Exceto por um ou outro deslize, o conto é bem construído, a trama e os personagens são bem desenvolvidos, sendo o mais memorável do livro, tanto pela temática quanto pela “aplicação” do famoso jeitinho brasileiro na resolução do conflito.

Outros que merecem destaque são Logan Marshall, de Larissa Caruso – conto policial ambientado numa Terra semelhante à descrita nos filmes de Barry Sonenfeld, MIB – Homens de Preto, com um texto que mixa humor e perseguições (para mim, o mais divertido e de leitura mais fluida de toda a coletânea); Seu momento de glória, de Marcelo Jacinto Ribeiro – distopia em que um tetraplégico renegado é a única esperança para salvar o mundo, o sarcasmo do protagonista e o desfecho inesperado compensam a “forçação de barra” em alguns momentos.

Engana-se quem pensa que não se produz ficção científica no Brasil. Não apenas se produz como também vários autores enveredam por essa vertente aventuresca da sci-fi, que é a space opera. E este livro é um apanhado bastante heterogêneo, mas bem interessante, do que se escreve atualmente nesse estilo.