Resenha | Star Wars: Tarkin – James Luceno

Tarkin é um dos livros do cânone de Star Wars, ao contrário do muito que se diz do antigo Universo Expandido, que jamais foi oficialmente tratado como futuro, passado e presente da saga de George Lucas. O romance se passa cinco anos após o golpe que Palpatine deu na república.

Nesse ponto, se revela o primeiro nome do político/ militar: Willhuff (o primeiro nome do Imperador também é dita, chamando então de Shiv Palpatine). A escrita de James Luceno é um pouco complicada, o ritmo da história é um bocado truncado, falta fluidez mínima na história, e o que se vê é uma narrativa arrastada, cheia de detalhes políticos que até são interessantes, mas que não se equilibra com os aspectos de ação ou aventura, ao contrário do que se fala a respeito de outro livro seu, do selo Legends, Darth Plagueis. Alias, apesar de ter sido jogado para um selo não canônico, Luceno faz questão de tornar oficial boa parte de sua história, dizendo que foi Plagueis o mestre de Darth Sidious.

O ponto de partida são as cinzas das guerras clônicas, deixando claro que o pupilo do imperador, Darth Vader ajudou muito no expurgo ocorrido após a lei 66. No primeiro capítulo, se estabelece que o Moff acha correto afirmar que seus métodos não são totalitários como os de Vader e do imperador. Isso é interessante e contraditório, não só levando em conta o visto em Uma Nova Esperança, mas também em Clone Wars, quando Willhuff era apenas um capitão do exército da república. Lá já demonstrava ideais autoritários, fato que o fez se aproximar do déspota que tomou o poder.

Das possibilidades para essa contradição, existem duas principais tentativas de justificativa para o comportamento de Tarkin, sendo a primeira um possível paralelo a realidade de muitos políticos atuais, que mesmo em ações neo liberais quando chegam ao poder, consideram-se esquerdistas levando em conta que o sujeito se auto engana, ao afirmar não ser autoritário), ou uma manipulação do próprio diário, para que ao menos sua memória oficial possa ser salva em caso de uma possível futura derrota do conglomerado imperial, em uma tentativa de contaminar futuras leituras ao seu respeito. Essa alternativa também tem paralelos iguais na realidade, inclusive entre costumeiros inimigos da opinião pública média.

O livro acompanha os detalhes da construção da Estrela da Morte e seus capítulos divididos por paginas pretas, as vezes com desenhos nos inícios dos capítulos, fato que faz o trabalho editorial da versão brasileira da Aleph muito bonita.

Luceno tem uma maneira de escrever bem peculiar,  de um jeito bem parecido com o de biografias. Suas histórias tem por costume focar bastante em seu personagem principal, e ao menos na parte em que foca a rejeição de Willhuff com os antigos separatistas, fato que ocorria por conta de sua origem. Nascido em Eriandur, em uma família rica, ele foi governador de  seu planeta antes de ingressar na carreira política. A narrativa varia de linha do tempo, entre o jovem cadete e o veterano político, que aliás, só ingressou nessa carreira por influência do chanceler de Naboo.

Na parte do presente, Palpatine ordena que Vader e Tarkin trabalhem juntos, a fim de encontrar um Destroyer que foi roubado por opositores do governo, e ali se afina a relação dos dois, que passam de pessoas que se respeitam a quase amigos. Wilhuff chega a suspeitar que Vader e Anakin Skywalker são a mesma pessoa, fato que não é dado, ao menos nessa parte da cronologia da saga.

É engraçado que pela ótica de Tarkin, o imperador é heroico, por ter conseguido organizar a galáxia e por driblar a problemática da corrupção do antigo senado, mas isso não justifica sequer aos olhos do Moff a exclusão de raças não humanas pelo Império, piorando muito quando se aproxima da borda da galáxia.

As primeiras aparições de Vader o tornam amedrontador, mas não para o personagem-título. Apesar do respeito do Moff, Vader contesta sua preparação, diante do Imperador, que diz que ele está sendo reducionista. O livro também cita profecias do Conde Dooku, que conversava com Tarkin para tentar trazer ele para o lado separatista, e também fala um pouco sobre Ahsoka Tano, personagem que quase causou um racha entre Vader e seu novo mestre.

Tarkin é mostrado como um belíssimo arquiteto e naves para a república e depois para o Império, mas incrivelmente deram a ele uma nave com um nome traduzido bem estranho: Pico da Carniça. Sua definição é de uma fragata, que fica baseada na Base Sentinela na Orla Exterior. A nave foi inspirada no design criado pelas naves furtivas usadas durante as Guerras Clônicas. Foi pega por uma célula rebelde e depois foi abandonada e recuperada pelo que restou do Império. Muito tempo depois, serviu ao Capitão Terex da Primeira Ordem.

A literatura, para quem gosta do personagem ou para quem gosta de detalhamentos de dia a dia militar,  vale muito a pena, pois se aprofunda bem a questão de patentes e meandros, mas segue estranho como uma trama tão simples como a tentativa de Vader e Tarkin em recuperar um Star Destroyer raptado consegue ser tão enrolada e com uma escrita tão burocrático. Curioso é que um dos livros mais elogiados do Selo Legends, é Darth Plagueis. Ler Tarkin faz pensar duas vezes antes de encarar a leitura deste outro que já não tem qualquer peso canônico. As partes mais passáveis são as do passado de Willhuff, em Eriandur, como herdeiro do governo de sua família.

De positivo em Tarkin, há o mergulho na intimidade de um personagem que ficou famoso como o real vilão de Uma Nova Esperança, a presença famosa no elenco que com Peter Cushing salvou o filme da inexperiência de Mark Hammil, Carrie Fisher e Harrison Ford, e notar isso hoje é um bocado estranho, já que são todos veteranos. Ainda assim, todo o código ético é bem exemplificado, e o livro serve bem como um pré Rogue One: Uma História Star Wars, no entanto a ideia de fortalecer o triunvirato Imperador, Vader e Tarkin é mal construída, de legal há a designação de Grão-moff (ou Gran Moff), e claro, o alvorecer da Estrela da Morte, mas não compensa a lentidão da trama.

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