Resenha | Supernova: O Encantador de Flechas – Renan Carvalho

Publicado pela editora Novo Século, sob o selo Novos Talentos da Literatura Brasileira, O Encantador de Flechas é o primeiro livro da trilogia Supernova, de autoria de Renan Carvalho. Somos apresentados a um mundo onde a humanidade e seu avanço tecnológico floresceram atrelados ao estudo da Ciência das Energias. Em essência, o controle dos elementos da natureza (luz, trevas, fogo, água, terra e ar), vulgarmente chamado de magia. Contudo, as coisas são diferentes em Acigam, palco deste início da saga. Atrasada em relação ao resto do mundo, a cidade vive isolada, há 15 anos ninguém entra ou sai de seus muros. A magia é expressamente proibida, e seus praticantes são impiedosamente perseguidos pelo governo opressor. Reunidos em segredo numa Guilda de Comerciantes, os magos travam um movimento de resistência, oculto da população geral, que gradativamente caminha para uma aberta guerra civil. Quando o destino o arrasta para o conflito, o jovem Leran Yandel terá que enfrentar vários desafios para não apenas sobreviver e proteger sua família, mas também para defender seus ideais.

A literatura de fantasia é um gênero cada vez mais forte no mercado nacional. Existem diversos bons trabalhos e esta obra não foge à regra. Após um começo que pode ser chamado de moroso – porém necessário para situar o cenário através da limitada visão inicial do protagonista, o livro adquire cada vez mais corpo conforme a trama se desenvolve. Um universo muito rico, detalhado, é apresentado aos poucos. História, política, configuração social, tudo isso tem seu espaço, mostrando um grande cuidado na elaboração não apenas de uma aventura, mas do mundo onde ela acontece.

Um dos aspectos mais divertidos durante a leitura de O Encantador de Flechas é perceber as influências da cultura pop presentes no livro. De uma forma, aliás, perfeitamente intrínseca, revelando que o autor é alguém cuja formação se deu consumindo esse tipo de produto, e não está só sendo oportunista e seguindo a modinha. O exemplo mais claro é a estrutura de rpg na criação dos personagens: cada um tem uma habilidade física e um “poder mágico”, e combina os dois para desenvolver técnicas particulares. Além disso, os coadjuvantes têm sua personalidade trabalhada a partir dos poderes (o amigo/rival esquentado controla o fogo, a curandeira é calma e associada a luz, etc.). Outra associação muito interessante é a dinâmica inicial do conflito entre os Silenciadores (assassinos de elite do governo) e os membros da Guilda (com diferentes gerações das famílias). Pra quem leu Harry Potter, lembra muito os Comensais da Morte e a Ordem da Fênix.

Em relação aos personagens, a maioria deles é estabelecida rapidamente, e mais pela sua função na trama do que por outra coisa (dentro de tal proposta, todos são muito interessantes). Aqueles que são mais desenvolvidos são Leran, Luana e Judra. O protagonista segue a clássica jornada do herói, com os elementos facilmente identificáveis: vida comum, chamado à ação, figura do mentor, aprendizado e crescimento, provas de fogo e tragédias, etc. Porém, faltou uma percepção na sua evolução. No começo ele se destaca por sua habilidade com arco e flechas, mas ainda tem dificuldades com a magia. Num salto da trama, ele diz que treinou intensamente e já é um guerreiro calejado. Claro, mostrar pequenas missões poderia comprometer a agilidade da trama, mas é algo que fez falta, ainda mais dentro da já citada estrutura de rpg.

Luana, irmã de Leran, cativa por seu jeito diferente, gótico. Ainda que não tenha tanto espaço, pois a história avança pela visão do irmão que a enxerga simplesmente como alguém a ser protegida (uma ótima sacada do autor). Por fim, Judra, de longe a personagem mais interessante do livro. Surgindo inicialmente como um simples interesse romântico, ela é responsável pelos melhores momentos de reviravolta. Além de ser muitíssimo bem trabalhada como a definição do CINZA, alguém sempre no fio da navalha entre bem e mal, e o mais louvável, sem cair numa redenção completa e purificadora.

A narrativa de Renan Carvalho incomoda no início, pelo pouco usual formato adotado. A história é contada em primeira pessoa por Leran, mas não falando no passado, e sim numa espécie de narração em tempo real. Quando ele está em alguma reflexão, ou falando de outras pessoas, ou mesmo descrevendo os combates (que são vários, e empolgantes em nível épico), problema nenhum. Mas em alguns momentos, principalmente no começo do livro, chama a atenção o fato de ele estar detalhando, PARA SI MESMO, aquilo que está fazendo. Algo mais ou menos assim: “Acordo. Olho pela janela, o dia está bonito. Desço até a cozinha, coloco sucrilhos numa tigela, em seguida o leite. Nossa, estou mesmo faminto”. Felizmente, isso é algo deixado de lado, ou que passa despercebido, conforme a história avança e o foco passa para eventos mais importantes. Quando a história engrena, a escrita (simples, mas de forma alguma pobre) flui de forma muito ágil.

Sendo um livro curto (360 páginas), mas recheado de conteúdo, O Encantador de Flechas surge como uma ótima recomendação, na linha de A Companhia Negra. Quer você seja fã de literatura de fantasia, mas está cansado da enrolação tão presente no gênero, ou principalmente se você não suporta tal enrolação mas gosta de histórias com pano de fundo bem trabalhado. Fica, inclusive, uma positiva expectativa para a continuação de Supernova.

Texto de autoria de Jackson Good.