Resenha | Uma Princesa de Marte – Edgar Rice Burroughs

O livro conta a história de John Carter, ex-combatente do exército confederado, que tenta recomeçar a vida depois de perder tudo com o fim da Guerra Civil. Inexplicavelmente, o capitão vai parar em outro mundo: Marte. O planeta, mesmo com sua aparência inóspita, possui diversas formas de vida, inclusive, seres inteligentes e desenvolvidos que vivem em sociedade. Contudo, assim como na Terra, vários povos estão sempre em guerra Carter cai – quase literalmente – no meio dessa batalha. E, como todo bom herói, irá enfrentar vários inimigos, fazer muitos amigos e, lógico, se apaixonar por uma princesa que, em algum momento, precisará ser salva.

Mais conhecido pelo seu personagem mais famoso – Tarzan – em 1912, Edgar Rice Burroughs iniciou a publicação de uma série de contos que posteriormente seria transformada numa coleção de 11 livros, de que este é o primeiro volume. Burroughs publicava as histórias sob o pseudônimo de Norman Bean, pois temia sujar sua reputação contando aventuras sobre marcianos e viagens espaciais. Apenas os três primeiros da série tem como protagonista o capitão John Carter.

O autor faz uso de um artifício bastante comum pra contar a história. Ele mesmo é um personagem, que recebe uma herança de um tio e, junto com o testamento, lhe é entregue um manuscrito. Nele, o tio, John Carter, contava suas aventuras em Marte. Sendo assim, o livro é narrado em primeira pessoa, o que dá ao leitor apenas a visão de Carter sobre todos os eventos.

“Não sei por que eu deveria temer a morte. Eu, que morri duas vezes e continuo vivo. Mas continuo tendo o mesmo medo de alguém que, como você, nunca morreu antes. E é por causa desse terror pela morte que, acredito, continuo tão convencido de minha mortalidade.
Por causa dessa convicção, decidi escrever a história dos períodos interessante da minha vida e morte. Não posso explicar tal fenômeno, mas apenas registrar aqui, com as palavras de um simples soldado, a crônica dos estranho eventos que se abateram sobre mim durante os dez anos em que meu cadáver descansou em segredo em uma caverna do Arizona.”
(p.14)

É possível afirmar que Burroughs é tipo um Jules Verne, mas sem se importar muito com a acuidade científica. Sua narrativa é muito mais focada na aventura do que na ciência, por essa razão alguns não classificam seus livros como ficção científica. É uma obra com alto teor imaginativo. Basta ver que a aventura se inicia quando o protagonista é transportado para Marte, assim, sem mais nem menos, numa cena do tipo “mentaliza e vai!”. Não se pode analisá-la, principalmente quanto ao aspecto sci-fi, pensando-se na ficção científica mais recente, que é muito mais “tecnológica” do que fantasiosa. Mas nem por isso, o autor despreza alguns fatos científicos decorrentes da presença de um humano em Marte. Acostumado à gravidade da Terra, cerca de 3 vezes maior que a de Marte, Carter de certa forma ganha superpoderes. Com seus músculos habituados a funcionar em uma gravidade maior, ele acaba se tornando mais leve, mais forte e mais veloz, o que lhe angaria a admiração dos marcianos.

Burroughs usa e abusa da criatividade ao descrever a fauna e flora que existem em Marte, diferente do conceito atual de que o planeta é apenas um imenso deserto – basta lembrar de Perdido em Marte, de Andy Weir. A riqueza de detalhes dá ao leitor a impressão de que aqueles seres, independente de sua viabilidade biológica, poderiam, sim, existir no planeta (vale destacar que um dos poucos pontos positivos do filme foi a fidelidade às descrições do autor). Além disso, Burroughs dá bastante atenção às civilizações que habitam o planeta, seus costumes, sua organização social, hierárquica e bélica.

Por ter sido produzido em fascículos, todos os capítulos têm algo que desenvolve a trama e, lógico, uma boa dose de ação. E é com esse olhar que o leitor atual deve se aproximar do texto. A leveza e, talvez, a extrema simplicidade da trama podem parecer pouco atraentes hoje em dia. Mas vale lembrar que são características inerentes ao formato como o livro foi produzido e publicado em sua época.

Texto de autoria de Cristine Tellier.