[Resenha] The Walking Dead: O Caminho Para Woodbury – Robert Kirkman e Jay Bonansinga

The Walking Dead – O Caminho Para Woodbury

“É só uma desculpa. As pessoas nascem más. Esta merda com a qual estamos lidando agora… é só um gatilho. Traz à tona a pessoa real.”

Lilly Caul

 “Viram o que tem lá fora? O cardápio é esse se quiserem sair pra comer! Vocês querem algum tipo de paraíso utópico, algum tipo de oásis de companheirismo amistoso e confortável? Chamem a porra do Norman Rockwell! Esta porra é uma guerra!”

O Governador

A parte literária da saga de The Walking Dead continua em O Caminho Para Woodbury, mais uma vez pelas mãos de Robert Kirkman e Jay Bonansinga. Trazido ao Brasil pelo selo Galera do Grupo Editorial Record, este segundo capítulo tem grandes momentos, mas no geral se mostra abaixo do primeiro, o ótimo A Ascensão do Governador. Isso por conta da questionável decisão de rebaixar o célebre vilão a um posto de coadjuvante de luxo, promovendo a nova personagem Lilly Caul ao centro das atenções.

A metade inicial de O Caminho Para Woodbury se concentra em Lilly e alguns companheiros sobrevivendo em um acampamento e posteriormente na estrada, até o momento em que encontram Martinez e vão para a cidade liderada por Philip Blake. Apesar de bem escrito e eficiente nas cenas de tensão, o segmento é apenas uma trama paralela, algo frustrante no sentido de que a curiosidade era mais acompanhar o Governador assumindo sua posição após o final do primeiro livro.

A presença de Lilly confirma que os livros se passam no mesmo universo dos quadrinhos, onde a personagem apareceu rapidamente mas teve um papel fundamental no inesquecível arco da prisão. Na adaptação desse momento para a TV, na quarta temporada do seriado, uma versão modificada de Lilly também teve destaque. No livro, o problema foi que, apesar de todo o espaço dedicado à garota, ela simplesmente não conseguiu ser uma figura atrativa.

Não há um traço marcante na personalidade da moça. Seu desenvolvimento consiste em realizar autocríticas por conta de um crônico medo paralisante, presente desde antes da praga. O contraditório é que, logo no início, ela tem um momento de superação ao salvar algumas crianças de um ataque zumbi. Tal evolução, porém, é sumariamente ignorada logo em seguida, e até próximo ao final do livro Lilly assiste passivamente aos eventos, e só. Seus parceiros de viagem, embora estabelecidos por meio de clichês, conseguem ser personagens mais fortes. O grandalhão gentil Josh Lee Hamilton, o médico beberrão Bob Stookey e a amiga viciada e promíscua Megan Lafferty, todos são mais interessantes do que a protagonista.

As coisas melhoram – e muito – quando o Governador finalmente volta à cena. Poucos meses após ter assumido o controle da cidade, ele está bem à vontade no papel de líder. Diante do medo e desesperança dos sobreviventes, bastava alguém forte e confiante para assumir o comando, e Blake se transformou nesse alguém. Por fora, ele já é o Governador como o conhecíamos desde a HQ, mas intimamente sua personalidade ainda tem conflitos, luta para se definir. Pena que em pouquíssimos trechos temos esse seu ângulo particular, pois ele divide o ponto de vista narrativo com Lilly e até com Bob e Josh.

Ainda assim, como todo bom coadjuvante, o Governador brilha, mesmo com espaço reduzido. E como todo vilão bem desenvolvido, nós entendemos as motivações para seus atos hediondos. Um exemplo é a política do pão e circo através da arena de gladiadores de Woodbury (cuja idealização e implantação são detalhadas aqui). Indo mais além, como agora sabemos tudo pelo que ele passou, vemos sua psicopatia com novos olhos, com a assustadora noção de que tudo é justificado, que Blake é um mal absolutamente necessário, e que, naquele mundo terrível, foi o Governador quem sempre tinha razão.

Em última análise, O Caminho Para Woodbury é uma boa leitura, prejudicado talvez pela expectativa e pela comparação com o alto nível de seu antecessor. O final, com Lilly enfim se fortalecendo, promete grandes emoções para o próximo capítulo, A Queda do Governador. Quando aliás, a saga literária finalmente vai cruzar com a dos quadrinhos, inclusive com as aparições de Rick e Michonne.

Texto de autoria de Jackson Good.

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