Contos | Revolta da Hora

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Sempre foi assim. Nunca pensei que algo poderia acontecer com tanta frequência, mas nos meus 35 anos trabalhando na montadora, tive minha experiência de uma constante. Toda manhã era a mesma história. Enquanto eu estava concentrado em instalar a barra de direção corretamente no chassi de algo que futuramente viria se tornar um veículo, via a silhueta do japonês se esgueirando entre o maquinário pra não ser visto chegando atrasado.

Mas ele nunca dava sorte. Quando chegava no seu setor, o encarregado já estava lá o esperando pra dar bom dia ao contrário. Eram cinco minutos de reprimenda, pra compensar os 5 minutos diários de atraso do Seiji. E mesmo quando o superior exagerava um pouco na represália, o “Atrasildo”, como fora apelidado, escutava quieto apenas balançando a cabeça afirmativamente como que concordando com o que ouvia.

O Seiji era um dos mais deslocados do resto do corpo de funcionários daquele setor. Ninguém sabia onde morava ou o que fazia antes de entrar pra montadora. Só sabiamos que era casado, porque usava aliança. Mesmo por ser quieto, não bastava pra ser alvo de chacota dos companheiros de trabalho.

Eu já estava na empresa há tempos, mas nunca esqueço do modo que o japonês chegava, com seu gingado que lembrava um pouco um pinguim, por ter as pernas curtas, ajeitando os óculos de acetato preto, sempre cuidadoso pra não chamar a atenção do resto do pessoal. Mas sem sucesso, os cinco minutos eram pontuais no atraso.

Essa novela de um capítulo durou pelos três anos que o Seiji trabalhou com a gente. Era final de ano, todo mundo animado pelo recesso e o comentando do amigo secreto que estavam organizando entre os funcionários do setor de montagem. Marcaram a confraternização pro último dia antes das férias coletivas. Depois do horário, todos se reuniram no refeitório pra trocar os presentes. Mesmo por sermos uma equipe composta de homens, todos éramos muito unidos, exceto pelos cinco minutos do nosso colega atrasado.

A troca de presente começou comigo, já que era o mais velho do setor. Presenteei um companheiro de tarefa com uma chave inglesa novinha em folha. E assim foi durante uns 40 minutos entre abraços, agradecimentos, risadas e votos de prosperidade para o próximo ano. Até que chegou a vez do Chagas, o encarregado. E para surpresa de todos ele estava sorridente e anunciou seu “amigo secreto”. Pra surpresa de todos era o Seiji! Caramba! Entre os 30 funcionários lá presentes logo o Seiji!

Todos ficaram empolgados esperando o que teria dentro da caixinha quadrada embrulhada em papel azul e branco. O japônes ficou meio desconcertado de início por ter que abraçar a pessoa que ficou no seu pé já por três anos. Ele agradeceu meio vergonhoso e começou a descolar a fita adesiva do embrulho, e a tensão crescia no refeitório. O embrulho se desfez e revelou a caixa de um Dumont novinho em folha, mostrador de madre pérola, pulseira de platina escovada e ponteiros de prata reluzente. O japonês ficou olhando pro relógio tentando entender o motivo da risada que ecoava entre todos nós.

Quando todos se acalmaram, a testa do Seiji estava levemente suada e seu rosto de amarelo estava com um leve tom de laranja. O Chagas complementou, “Não se preocupe Seiji, esse aí tá acertado. E com cinco minutos de atraso do seu!”. O japonês agradeceu com algumas palavras ininteligíveis e logo a confraternização acabou. Voltei pra casa contente por ter ganhado um kit de chaves philips cromadas, pronto pra descansar por um mês inteiro antes de voltar pra minha banca de ferramentas.

Natal, Ano Novo e montadora funcionando à todo vapor novamente. No primeiro dia fiquei esperando ver a figura do “Atrasildo” e seus cinco minutos e nada. Logo apareceu o Chagas e perguntei onde estava o Seiji. Ele deu uma risada engasgada e me disse “O Seiji pediu as contas logo depois da confraternização! Haha! Acho que a brincadeira do relógio foi muito pros cinco minutos dele.”

Texto de autoria de Felipe “Jim” Rozz.