Resenha | 2099: Manifesto Destino

2099 Manifesto Destino

O título da história brinca com a máxima que garante aos estadunidenses a legitimidade expansionista sob o pretexto de possível vontade Divina – o chamado Destino Manifesto. Não à toa a narrativa está presente nas primeiras páginas do que seria o ano de 1999 do universo Marvel, em que o Surfista Prateado observa, ao redor do planeta, a movimentação humana usufruindo dos bens naturais sem qualquer freio moral e se digladiando por qualquer motivo. O roteiro de Len Kaminski trata deste assunto em dois momentos, um no tempo presente da publicação, e em outro, um século depois.

O universo 2099 era uma aliteração do que Stan Lee e Jack Kirby criaram visando recontar o cenário atual do panteão heroico a cem anos no futuro. Nem tudo o que era publicado nesta realidade era de qualidade relevante, talvez tendo no Homem-Aranha o seu único ponto de qualidade reconhecida pela maioria dos fãs. No roteiro de Kaminski a sociedade evoluiu, tornou-se algo de utópica e livre de preconceitos, como a infofobia (medo ou aversão ao uso dos recursos da informática) e o racismo, mas que ainda sofre com efeitos ecológicos. Para o leitor que não está acostumado com o universo de 2099, é um bocado difícil se inserir no clima da história em razão da trama pouco palatável para o leitor “civil”.

A história que envolve os seres poderosos começa mostrando Uatu, um dos seres chamados Vigia que foi punido por pecar interferindo na experiência de vivência humana, clonando os personagens do Quarteto Fantástico para travar batalhas pela extensão da eternidade. Em determinado momento, o Cavaleiro da Lua adentra o ambiente controlado da entidade onisciente para discutir com ele sobre a manipulação destes análogos dos heróis, igualando este ato a brincar de Deus.

Paralelamente, um grupo de cientistas ressuscita o Capitão América de outro sonho criogênico – o efeito metalinguístico não poderia ser maior, uma vez que a forçada situação remete também à megalomania dos editores, que em vez de buscarem ideias novas, reciclam os mesmos clichês ad eternum. Curiosamente, o momento em que Steve Rogers foi congelado era o de uma batalha entre humanos e mutantes, e o momento socioeconômico daquele universo atravessa uma crise exatamente pela falta de união entre as duas “espécies”, numa clara brincadeira entre o modo de fazer guerra dos anos 30 e 40 e a Guerra Fria, em que havia um clima hostil, apesar de não nada ter sido declarado de fato. Mas esse ínterim, que poderia ser interessante. é deixado de lado em nome do massa véio, onde todas as atenções convergem para o novo líder dos Vingadores, momento em que Rogers toma o martelo do Deus Nórdico que, neste momento, tem a sua própria seita:

Incrível como mesmo com todas as mazelas sociais superadas, o mal ainda persiste a espezinhar os humanos e consequentemente fazendo dos heróis bravos lutadores em prol da justiça. A batalha astral que os Vingadores travam não é interessante, tampouco o traço de Mark McKenna consegue garantir momentos emocionantes. Tudo é vazio e forçado.

Com os saltos no tempo, percebe-se que o estado brando de pacifismo vai, aos poucos, ganhando lugar em espaços de tempo bastante extensos, onde os heróis como Uatu, Reed Richards e Steve Rogers inspiram os novos bons atos praticados por aquela sociedade, o que seria interessante caso este fosse um conto asimoviano. Como não é e nem mesmo caracteriza uma aventura descompromissada onde a violência impera em caráter massa véio, 2099: Manifesto Destino fica preso em um limbo e exprime em si toda a mediocridade própria dos quadrinhos dos anos 90, sem precisar sequer lançar mão do estilo Rob Liefeld de desenho. A leitura é enfadonha e de conteúdo deveras pretensioso.