Resenha | A Arte de Voar

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Como se destacar no meio de tantas editoras? Basicamente, trabalhando duro, publicando materiais de qualidade, e claro, um pouco de sorte. Um bom exemplo disso é a independente Veneta, editora fundada em 2012 por Rogério de Campos, ex-editor da Conrad, e que pouco a pouco tem mostrado seu potencial e alcançado seu lugar ao sol.

Rogério de Campos, que não é bobo, deve ter escolhido a dedo o primeiro lançamento de sua editora, e verdade seja dita, escolheu muitíssimo bem. A Arte de Voar, de Antonio Altarriba e Kim, é um belo início e denota a visão apurada da editora nessa escolha de publicação.

A Arte de Voar se dá início em um 4 de maio de 2001, na Espanha, onde acompanhamos um homem de 90 anos, pai do autor desta HQ, perto do fim de sua vida, com graves problemas renais, – o que o impossibilitava de calçar seus próprios calçados – e definhando de uma depressão absoluta por um passado que o assombra, tentando desesperadamente subir ao quarto andar de um asilo onde estava internado já há alguns dias, para de lá se jogar e assim dar fim ao pouco que ainda resta de sua vida sofrida.

O que motiva o ser humano a se suicidar, colocar um fim em sua existência, mesmo que repleta de desilusões e pouco tempo de vida pela frente. Quais são as razões para gestos humanos tão radicais como o suicídio acontecer? Devemos julgar tais atitudes? São essas apenas algumas das perguntas que o autor nos questiona ao longo da obra.

Alguns dias após o suicídio de seu pai, uma das poucas lembranças que recebeu foi uma conta de 34 euros do asilo onde seu pai estava internado antes de morrer. Sem ao menos respeitar o seu luto, a dívida já estava sendo cobrada. Coisas da vida moderna. Altarriba não aceitou e devolveu a conta à casa de repouso, pedindo ao menos que respeitassem alguns dias do seu luto. Bobagem. A dívida seguiu em frente judicialmente e o autor acabou perdendo o pouco que restava da herança do pai. Motivado pela revolta, Altarriba decidiu expurgá-la escrevendo sobre seu pai.

Assim, a trama retorna à Espanha do século XX e o autor passa a contar como a história do seu pai está intimamente ligada aos movimentos sociais que ocorreram na Europa, narrando o período da Guerra Civil Espanhola, de 1936 à 1939, que dividiu o país, partindo na sequência para a Segunda Guerra Mundial. Ambos conflitos tem um importante peso na formação do protagonista, desde seu envolvimento com os movimentos anarquistas na Guerra Civil Espanhola, como também na Resistência Francesa durante a Segunda Guerra.

A segunda metade da HQ reforça a ideia das desilusões do protagonista. Com o fim da guerra, Altarriba continua sem esperança e descrente do que será o seu futuro, já que não encontra emprego e vê como única solução utilizar de meios ilícitos para sobreviver. A história se desenvolve com a derrocada das crenças do protagonista.

Ao ler A Arte de Voar é impossível não traçar alguns paralelos com Maus. Ambas as histórias se passam durante a Segunda Guerra, os autores são os filhos dos protagonistas de suas histórias, que por sinal, nunca se deram muito bem com eles, mas me parece que a HQ em questão é mais contundente em seu objetivo. A história de Altarriba é por vezes mais densa, não pelo conteúdo em si, mas por se tratar da história daqueles que ninguém tem interesse em saber, dos anônimos, decadentes, e acima de tudo, dos párias da sociedade.

A HQ toca em temas políticos, e o tom pessimista aumenta a cada página, mesclando momentos históricos com dramas particulares. Os traços de Kim são extremamente detalhistas, mas com uma crueza típica de histórias reais. Extremamente honesta, dura e densa, A Arte de Voar é uma história importante e necessária na formação de qualquer indivíduo. Não deixem de conferir!

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