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Resenha | A Saga do Monstro do Pântano – Livro Sexto

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“A inspiração existe, mas ela precisa te encontrar trabalhando.” – Pablo Picasso

O Monstro do Pântano não existe mais. Não na Terra: após ter sido exterminado a ferro e fogo, e em praça pública, ao quase destruir Gotham City em toda a sua cólera para resgatar a sua amada Abigail da prisão, a consciência do Verdão saiu de seu corpo queimado e vagou pelo espaço, uma energia livre feito ondas radiofônicas entre as estrelas, além de quaisquer limites para explorar outros mundos. Neste sexto volume das aventuras do Monstro do Pântano, o escritor Alan Moore (Watchmen) rompe a atmosfera e leva o guardião oficial da fauna e flora terrestres para fora de sua jurisdição, em ambientes cujos domínios já possuem outros guardiões que ele, tão acostumado a seu discreto e solitário pântano, nunca sonhou a conhecer fora da zona de conforto que tampouco lhe restou. Bem-vindo ao final desta saga, em oito histórias de pura fantasia espacial repletas de ação, drama e desenhos delirantes.

Quando Moore decidiu trabalhar com um personagem esquecido desse, ainda em 1983, o desejo era tão simples quanto majestoso: remodelar essa criatura ao status de um semideus com falhas, coração e um pesado senso de humanidade. Em 64 histórias, o autor de V de Vingança e A Liga Extraordinária provou (dentro de um grande arco narrativo) ser capaz de aprofundar as raízes de um ícone das histórias em quadrinhos da DC que ninguém se importava na época, dando-lhe poderes, conceitos políticos, dilemas morais e uma carga dramática ainda sem precedentes a maioria dos outros ícones das HQ’s. Em O Mistério no Espaço, por exemplo, ao se deparar com um novo planeta para habitar, o assim chamado ‘Monstro’ devido a sua aparência metade homem, metade vegetal, encara uma xenofobia violenta dos nativos e a intolerância de outros heróis que enxergam nele uma ameaça assumida, apenas por sua imagem horripilante. Nunca o pântano lhe pareceu tão distante, e nunca a diplomacia se mostrou tão valiosa – mesmo ele sendo capaz de, ao controlar tudo o que é orgânico, rachar o planeta a dois.

Já na belíssima Toda Carne é Erva, ilustrada com painéis coloridos de tirar o fôlego pelos traços de Rick Veitch e Alfredo Alcala, a mente do Monstro do Pântano se conecta desta vez no ecossistema do planeta J586, promovendo um caos entre os milhões de habitantes do planeta que, curiosamente, são feitos de vida vegetal. Mas é claro que o Lanterna Verde que cuida deste humilde mundo, o poderoso Medphyl, vai medir forças com a entidade que veio para causar o horror e que se impõe ao seu anel, feito um titã com os pés no solo e a cabeça na estratosfera. Aqui, a história traz à tona o poder da nossa vontade, da consciência e da coragem, coisas que não tem nada a ver com nosso tamanho ou qualquer outro empecilho pelo caminho. Abusando de uma narração em primeira pessoa, esse breve conto mostra-se ainda que simbólico mais simples que o normal, e assim seguem-se os próximos contos que marcaram a despedida de Alan Moore para com o personagem.

Tanto em Exilados quanto em Amor Alienígena, esse Volume 6 já dá sinais claros de falta de inspiração, de cansaço criativo, algo nunca atestado nos Volumes anteriores. Ao brincar de Star Trek, levando essa figura superpoderosa onde nenhuma outra jamais pisou, Moore traçou suas últimas bem-sucedidas ambições para o Verdão de uma forma solene, ainda que sem conseguir esconder a sua exaustão imaginativa. Ao mesmo tempo, o mago inglês escrevia Watchmen, a HQ de super-heróis mais importante da história, e na introdução que abre este último volume publicado pela editora Panini, o desenhista Stephen Bissette admite que o autor estava sobrecarregado de trabalho, e por isso, o fascínio dos seus primeiros contos de terror, ficção científica e fantasia já estava se apagando. Mesmo assim, faz-se um desfecho satisfatório ao Monstro do Pântano assinado por Alan Moore, e que ainda encontra no romance e na filosofia temas que tornam o seu final quase tão memorável quanto ela conseguiu ser, em seus maiores momentos.

Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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