Resenha | A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar

“Cheguei à conclusão que há dois tipos de pessoas. Os bem fodidos e os totalmente fodidos” – Seth

Há certa beleza poética na melancolia com a qual Seth carrega as páginas de A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar. O volume reúne as edições originalmente publicadas nas edições #04 a #09 da série em quadrinhos do autor, Palookaville, bem popular durante os anos 90.

O anacrônico quadrinista canadense, de exótico estilo e um nostálgico inveterado, se insere no centro da narrativa ao desempenhar o papel de protagonista de uma insana e, à primeira vista, incompreensível busca por um misterioso cartunista dos anos 40 e 50, do qual ninguém sabe muita coisa ao certo.

Contando com seu inabalável amigo Chet para se lamentar e divagar sobre o tempo, a vida e as pessoas, Seth atravessa os anos nessa jornada em direção ao passado, encontrando nessa empreitada uma fuga de sua própria realidade medíocre e triste.

A fixação do protagonista/autor com a primeira metade do século XX se descortina ao longo da narrativa em uma verdadeira incapacidade de enfrentar os próprios problemas, as próprias imperfeições, buscando em um passado idealizado e irrecuperável uma âncora que lhe dê significado e propósito no mundo. Avesso às mudanças que a vida impõe, o protagonista se vê perdido e sem rumo, enquanto observa os anos passando e tudo à sua volta se modificando.

A busca pela história ordinária de Kalo – um cartunista canadense que logo abandonou a carreira promissora e encarou outra profissão para sustentar a família, se adequando às mudanças que a vida impôs –, acaba se mostrando um trabalho de reflexão do próprio Seth em sua relação com o passar do tempo, não rendendo qualquer clímax arrebatador, de forma que a história se finda tão monótona quanto começou.

Contudo, não se engane. Tal monotonia é um excepcional acerto dentro da composição diegética do quadrinista. O tom melancólico com o qual autor concebe a narrativa não poderia ter outro resultado senão o anticlimático final que possui. A forma como o autor aborta esse descompasso e desconforto com a vida acaba gerando certo efeito cômico, que equilibra as nuances do quadrinho, sem que este se enverede pelo dramalhão ou para o nonsense. Há muito humor por trás da aparente tristeza com a qual Seth lida na história.

A coloração amarelada das páginas, aliadas às pinceladas de azul em meio ao preto do nanquim, reforçam o desalento com o qual o protagonista se depara em sua vida. A paleta, inclusive, se assemelha em certa medida a Fun Home, de Alison Bechdel, ainda que o expressivo traço da quadrinista norte-americana em muito se diferencie da minimalista arte de Seth, que parte da inexpressividade para transpor ao máximo a indiferença e o marasmo com os quais o protagonista enxerga o mundo à sua volta.

A diagramação das páginas obedece a uma aparente simplicidade e organização fixa, sem fuga dos padrões de requadros tradicionais, exceto quando Seth entra em suas rememorações de tempos idos, contemplando seu próprio passado inatingível.

A obra se trata, dessa maneira, de uma excelente e em igual medida incômoda narrativa gráfica, com a qual Seth toca poderosamente o leitor, expondo suas incongruências particulares em uma viagem ficcional de autoconhecimento e autorreflexão, tanto para o próprio autor quanto para quem se aventure a desbravar as páginas de sua “novela em quadros”.

“A vida é boa, se você não fraquejar” saiu aqui no Brasil publicada pela editora Mino, em 192 páginas e capa cartão, em uma belíssima edição. A narrativa se insere dentro do hall das grandes histórias em quadrinhos indie dos anos 90, prato cheio para quem se interessa por narrativas que fujam do padrão publicado no mainstream.

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