Resenha | Alho-Poró

Alho-poró é um misto entre o cotidiano e o surreal.  Encontrar um quadrinho que consegue unir as duas coisas de forma tão harmoniosa é quase tão difícil quanto achar um lugar que venda o sabor de quiché preparado pelas suas
personagens. A responsável por isso é a Bianca Pinheiro, autora de Mônica: Força, Dora e da série Bear, que cuidou não só da arte, mas também do roteiro do quadrinho lançado em 2017 via financiamento coletivo pelo Catarse, e foi publicado pelo estúdio e selo de quadrinhos La Gougoutte (formado, ao lado de Bianca, pelos autores Alexandre Lourenço, Greg Stella e Yoshi Itice).

A arte é a primeira coisa que chama atenção, principalmente pela escolha dos traços mais grossos e das cores em tons pasteis. E a relação entre essas escolhas e o roteiro é desvendada logo no início, já que a monotonia e o tom de cotidiano estão presentes desde a primeira cena, com duas amigas procurando alho-poró num supermercado.

Além das escolhas artísticas, os diálogos também aumentam esse sentimento, funcionando de forma extremamente natural. As mudanças repentinas de assunto e retomada de temas que já foram ditas nos aproximam das personagens e tentam ao máximo dar a impressão de que as conhecemos há bastante tempo. O número reduzido de cenários, bem como a maior parte da trama se passar no trajeto entre o supermercado e uma casa tornam essa sensação ainda maior.

O desenvolvimento da história acompanha essa suavidade, dada desde o início, e a quebra desse padrão eleva o choque através do rompimento da expectativa, fazendo com que reviravolta do roteiro seja ainda mais impactante. As transições entre os momentos são muito bem escolhidas e há uma preocupação em tratar do essencial, sem excessos. Tudo isso faz com que a gente termine a leitura e fique com aquele gosto na boca, de algo que comeu e gostou.

Texto de autoria de Caio Amorim.

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