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Resenha | Atômica: A Cidade Mais Fria

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Na iminência história da queda do muro de Berlim, numa Alemanha mais que tumultuada nos idos de 1989, tão longínquos as gerações dos anos 2000 quanto a era paleolítica e outros tempos remotos, um homem é assassinado no lado ocidental de Berlim. Longe de ser apenas um civil, o homem era um espião e fazia parte da agência britânica de inteligência, a MI6 (dos filmes Missão: Impossível), que trabalha para fornecer informações confidenciais ao governo inglês, há mais de um século. Algo de podre cheira de seu óbito, uma vez que alguém o descobriu portando uma poderosa lista que contém o nome, e sobrenome, de todos os agentes secretos que atuam em Berlim. Alguém sabia disso, e no auge do caos sociopolítico no epicentro da Guerra Fria, esse alguém desapareceu na cidade mais fria.

Aliás, The Coldest City foi o título original desta publicação da editora Darkside, no Brasil, sendo que Atômica é muito mais pop e interessante, inclusive servindo de título ao bom filme estrelado por Charlize Theron. Nota-se como o filme foca muito mais na ação, e na correria, do que nos segredos e nas reviravoltas ao longo do caminho dessa super espiã, enviada a Berlim ocidental para capturar essa misteriosa lista cheia de nomes importantes a segurança nacional da Inglaterra. O filme de 2017 realmente a vê como uma espécie de John Wick de salto alto, quando na verdade Lorraine é uma personagem dramaticamente bem construída, e está mais para uma mistura de James Bond com o protagonista de O Samurai, uma joia do cinema francês de 1967 – carregando a alma amarga de um Humprey Bogart (O Falcão Maltês).

Ao encarnar o clima noir, e detetivesco das melhores obras dos anos 1930, 40 e 50, logo no visual preto-e-branco do início ao fim, Atômica, de Antony Johnston (roteiro) e Sam Hart (arte), mostra-se uma dessas HQ’s cuja trama e encanto gráfico vão muito além de sua centena de páginas. A trama gira em torno da busca de Lorraine e seu correspondente em Berlim, o velho e irritante Percival, ambos na caça ao assassino do espião da MI6, em uma cidade (“um barril de pólvora.”) onde não se pode confiar em uma única alma viva – mesmo quando a tentação de ir para a cama com alguém, ou fazer amigos, possa ser forte demais. Nem mesmo pode-se ter fé, como em certo momento notamos junto de Lorraine, sobre a real motivação de sua missão. Algo que beira, de fato, o impossível, quando as coisas mostram-se muito mais complexas e imorais do que somos todos levados a acreditar.

Sob a sombra da queda do muro, um dos grandes marcos do séc. XX a redesenhar toda a história política da Europa, e do mundo, a graphic novel de 2012 é uma nobre e inteligente celebração aos clássicos contos de espionagem, com apenas um equívoco logo no final, ao explicar e desnudar, nos detalhes mais ínfimos, todas as sedutoras incógnitas da história. Tais revelações, logo em seu desfecho, enfraquecem parte considerável do brilhantismo desse conto de espiões, justamente por desmistificar grande parte de seus mistérios, e também por explicar novamente muito daquilo que o leitor já tinha descoberto. Subestimar o outro nunca é uma boa jogada, mas no caso de Atômica, tal pecado não fere todo o potencial muito bem explorado ao longo de uma cativante leitura.

Compre: Atômica.

Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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