Resenha | As Barbas do Imperador

As Barbas do Imperador - capa

A parceria entre a escritora Lilia Moritz Schwarcz e o ilustrador Spacca já rendeu bons frutos anteriormente no primeiro trabalho da dupla, D. João Carioca – A Corte portuguesa no Brasil, publicado em 2008 pelo selo Quadrinhos na Cia., da editora Companhia das Letras, que abordava a chegada da família imperial ao Brasil e um pouco do Primeiro Império.

Quase seis anos depois, a dupla se uniu novamente para dar continuidade a essa história, mas dessa vez para narrar a história do Segundo Império, desde o nascimento de Pedro de Alcântara; sua infância; a partida de seu pai, D. Pedro I; a sua preparação para assumir a coroa; todos os liames pelos quais passou o Brasil durante o reinado e culminando, por fim, em sua morte.

Importante ressaltar que As Barbas do Imperador é um livro da própria Lilia e vencedor do prêmio Jabuti em 1999, marcando um passo importante na construção historiográfica do Segundo Império, já que trouxe uma revisão sobre o período régio no Brasil, a sociedade brasileira da época e a importância da iconografia para fundamentar o poder monárquico de D. Pedro II.

Nesta adaptação, Lilia se reúne com Spacca novamente para dar cores ao próprio trabalho, conseguindo se adaptar à linguagem da arte sequencial para mostrar como funcionavam os símbolos e a construção de uma sociedade para D. Pedro II. Era de suma importância para ele criar um retrato de nação romântica, concebendo uma memória para consolidar a monarquia, financiando pintores para enaltecer a nacionalidade, escritores que simbolizassem o que houvesse de melhor no Império e historiadores voltados à construção dessa memória, sempre buscando inspiração nas raízes nacionais, principalmente voltadas à figura do índio e do exótico, criando os alicerces do país.

Não à toa, este projeto “indianista” de D. Pedro II se reflete em dezenas de esculturas, quadros, romances, e até mesmo em símbolos da monarquia, como a moeda e xilogravuras envolvendo o monarca, se integrando cada vez mais à iconografia política do Brasil. Com o tempo, percebemos que esses símbolos se tornam motivo de sátira para alguns impressos da época.

Além disso, entendemos um pouco como a monarquia utilizava as festas como instrumentos estratégicos para a consolidação da realeza e a aproximação com um império tipicamente europeu, com suas cores exóticas, é claro. Sempre buscando uma afirmação de poder, reforçando uma ideia mítica de monarquia. Essa visão vai se degradando nos anos finais do Segundo Império.

A obra dá espaço para os acontecimentos históricos da época, desde as rebeliões no período de regência, como os movimentos abolicionistas, a Guerra do Paraguai, e tantos outros. Além de demonstrar que, desde os períodos de Segundo Império até hoje, quem detém o poder sempre soube fazer alianças entre partidos com ideais opostos daqueles que acreditava, já que D. Pedro II sempre se revezou entre os representantes dos partidos liberais e conservadores, ora buscando alianças de um lado, ora de outro. Nada muito diferente do que vemos hoje.

O texto narrativo é um pouco truncado para uma HQ, funcionando muito mais como um texto analítico, misto de ensaio e biografia de Dom Pedro II. Contudo, o objetivo é este mesmo: adaptar a obra de forma mais palatável para todas as idades e não propriamente um roteiro de quadrinhos que estamos habituados a ler. Spacca surge justamente para dar vida à história e transpor essa linguagem ao universo das HQs, e, verdade seja dita, faz muitíssimo bem. Seu traço caricatural é vivo e recria cada momento de forma interessantíssima, desde o modelo da época, como a construção de retratos, documentos, pinturas e outros símbolos iconográficos, sempre de forma dinâmica. O álbum conta ainda com uma seção de extras com textos sobre a Guerra do Paraguai, a escravidão e a importância que a fotografia teve no império de D. Pedro II, além de uma galeria de construção dos personagens e cronologia da época.

As Barbas do Imperador é um belo lançamento para compreendermos um pouco sobre nosso passado e entendermos nosso presente.

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