Resenha | Batman: Corte Das Corujas

Batman - A Corte das Corujas - Panini
(Publicado no Brasil em Batman (Os Novos 52) #01 a #07 em 2012)

Scott Snyder havia se notabilizado com uma história no selo Vertigo, passando os roteiros de O Vampiro Americano para Stephen King no começo e depois fechando a saga sozinho. Após fazer dez números de Detective Comics, Snyder se tornaria um dos queridinhos de Dan DiDidio e de todo o editorial da DC Comics responsável por Superman Sem Limites e pelas primeiras histórias do Monstro do Pântano. A primeira mostra dessa predileção é o título do Batman, que conta com desenhos de Greg Capullo.

A primeira história, O Truque da Faca, mostra uma Gotham desesperançosa, quase jogada às baratas e repleta de malfeitores. Semelhante a uma reunião mequetrefe, a história é mais condizente com as do Homem-Aranha do que com as do Morcego, com criaturas como Espantalho, Crocodilo, Duas Caras, Charada e outros, que atacam o Cruzado Encapuzado de modo afoito, num embate puramente físico, que mal dá chance a qualquer elaboração de um plano mais sofisticado. Tal ataque serve para a comparação textual que Batman faz, comparando seus antagonistas a adolescentes, refutando a ideia de que a cidade reflete os seus vilões.

Gotham é a imagem e semelhança de seu protetor, tanto é que o único bandido que se diferencia da patuleia é o Coringa. Não há uma introdução da origem do personagem. A figura que (supostamente) sofreu pouco ou quase nada com o reboot, de modo que a história de sua origem é postergada. Voltando à máxima da definição da cidade, Bruce Wayne, em discurso, fala que Gotham é algo indefinido, entre lar, família e/ou propósito. Diante de toda essa esperança, Bruce é apresentado a Lincoln March, CEO da March Venture, magnata e homem de negócio de importância enorme para a cidade, visto que quer se tornar prefeito.

O mistério de um assassinato leva Batman a investigar o que seria a ação de um serial killer, que, segundo testes de DNA, bateria com as descrições de Dick Grayson, seu primeiro parceiro, o que estabeleceria uma clara quebra de confiança. Paralelo a isto, Lincoln March se aproxima de Bruce, mas não para captar apoio público ou verba para sua campanha, mas sim para ganhar um único voto, o do herdeiro e reconstrutor de Gotham. Há uma tentativa clara de criar-se uma ponte entre os dois socialites de Gotham, até pelo passado semelhante de ambos, pois Lincoln também foi órfão muito cedo. Mas a bela discussão dos dois é interrompida por um assassino, com vestes de coruja, que esfaqueia o político na frente de um temporariamente inerte Wayne. A reação de Bruce é de parecer defender-se de modo legítimo, como se tivesse sorte, e, como era de se esperar, o alvo real era mesmo ele. A Corte das Corujas é revelada aos seus olhos, e ele reafirma a promessa de que a cidade só teria uma lenda: o Batman.

Uma das coisas mais interessantes dessa nova abordagem é o uso que o detetive dá à tecnologia, com interfaces mais interativas e dispositivos de alto rendimento e fácil manuseio – ao menos para ele. Nas palavras de Alfred, é como se a Batcaverna fosse levada para qualquer lugar através de uma “simples” lente ocular. As ultrapassadas ideias de que um computador do tamanho de uma caverna seria mais eficiente que dispositivos portáteis repletos de memória foram finalmente deixadas de lado, evoluindo alguns dos conceitos apresentados na fase de Grant Morrison à frente do número.

Os problemas do roteiro de Snyder não são grotescos, mas sim de concepção. A ideia de instalar uma sociedade secreta – formada por novos ricos, que tem em si um número grande de assassinos treinados, e que se vale dos décimos terceiros andares dos prédios da metrópole – é curiosa, mas inverossímil. Acreditar que todo aquele aparato ficou incógnito por décadas e só seria descoberto pelo maior detetive do mundo em pleno século XXI é contestável demais, além de exigir do leitor uma suspensão de descrença imensa. A vontade de emular a questão de que os ninhos de corujas são feitos em lugares escondidos, longe dos olhos humanos mas próximos de seus lares, tem uma intenção genuína, porém conta com uma execução fraca.

Com o desenrolar da trama, Batman se recusa a acreditar na existência da Corte das Corujas, um pouco por falta de fé, mas também por deixar transparecer um pouco de preciosismo e egocentrismo, e tal erro lhe custa caro. O Morcego é convidado a enfrentar seus opositores em um labirinto soturno, um local que, mesmo que o personagem geralmente se sinta à vontade, torna-se amedrontador. O embate não é exatamente físico e varia entre delírios mentais envolvendo o passado de Gotham e a realidade perigosa e predatória que ataca o vigilante.

A arte de Capullo tem uma qualidade que é no mínimo discutível, mas ganha bons momentos nas edições cinco e seis, onde ele decide usar o seu lápis de modo mais anárquico, fazendo o seu Batman ficar até mais parrudo, semelhante ao que ocorrera com o Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.

O oponente Garra é um combatente interessante no começo, mas logo se mostra um sujeito comum, sendo mais um vilão ordinário e pouco diferenciado da patuleia criminosa de Gotham. Uma caça que ocorre na cadeia alimentar natural das aves sobre os mamíferos voadores. A explicação de Bruce a Dick de que ele poderia ser um membro da tal corte é risível, graças ao famigerado soco cirúrgico de Batman, que consegue arrancar exatamente o dente com a inscrição da ave esculpida. A solução é fraquíssima e causa gargalhadas em quem acompanha as desventuras do Cruzado Encapuzado. Logo depois, a Corte manda seu “exército de Garras” cruzar o caminho de Bruce Wayne, no que seria a primeira mega saga envolvendo a batfamília, denominada Noite das Corujas. Apesar dos muitos tropeços, os primeiros sete números de Batman mostram uma aventura escapista até divertida, claro, levando-se em conta concessões às problemáticas infantis.

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