Resenha | Batman e Capitão América

Batman e Capitão América - John Byrne

Remetendo ao antiquíssimo selo Túnel do Tempo (ou Elseworld), John Byrne utiliza sua larga experiência e o trânsito livre que sempre teve nas duas principais editoras de quadrinhos mainstream para contar o recordatório que remete ao começo da carreira de dois ícones heroicos imortais, o Cruzado Encapuzado e o homem que lutou a Segunda Guerra Mundial ostentando em seus músculos a bandeira americana, também lembrando, claro, de seus parceiros mirins e seu maiores rivais.

Passada em janeiro de 1945, ainda com os ecos europeus da grande guerra contra Hitler e companhia, a história começa em Gotham, mostrando uma referência visual muito semelhante a dos primeiros capítulos de Bob Kane enquanto desenhista da Detective Comics. O resgate a este momento específico é válido, causando no leitor um saudosismo agradabilíssimo e muito pontual, uma vez que, em meio aos anos 90, ocorria uma das maiores derrocadas do Batman – leia-se Queda do Morcego.

É curioso notar que a perseguição entre o Batmóvel e o carro do Coringa é feita por dois Fuscas, mostrando que quase nem era necessária a chancela em balões informando a época do confronto. O clima escapista é notado nas cores escolhidas por Byrne, que, apesar de manter um pouco do clima soturno das primeiras histórias, vê no excesso de cores nos uniformes dos personagens o retrato de uma época em que a docilidade pueril era de praxe.

Pelo lado europeu do globo, o Capitão América enfrenta a guerra que ainda domina o continente, num embate contra uma máquina assassina hitlerista, uma mistura de tanque de guerra com um robô mas que é facilmente subjugada pelo Sentinela da Liberdade, que, acompanhado do Sargento Rock e da Companhia Moleza, consegue derrubar a resistência nazista. Logo, o herói recebe uma ordem para se reapresentar e interceptar um avião sequestrado. Já no ar, ele decide deter a máquina voadora sem paraquedas ou qualquer outro artifício de segurança, logrando êxito, como era típico das primeiras histórias. Logo o Morcego se aproxima, também no ar, para ajudar o herói a combater seus oponentes, sem qualquer explicação prévia, mas em união bela e proveitosa.

Pelo dito nas linhas do roteiro, esta não seria a primeira cooperação entre os heróis, o que agrava ainda mais a missão dada a Steve Rogers, a de investigar uma possível conexão entre o milionário Bruce Wayne e o Coringa, que teria em mãos um plano expondo alguns segredos de Estado muito valiosos.

Em um embate físico entre as contrapartes sem uniforme, ambos, logo depois, decidem cooperar mutuamente, visando alcançar o palhaço vilão de Gotham. Detalhe importante e que colabora muito com a velha disputa entre marvetes e decenetes é que Bruce chega ao cúmulo de assumir sua inferioridade ao soldado americano, antes de eles fazerem as pazes e voltarem a ser amigos.

Logo se descobre que o ardil é orquestrado pelo Caveira Vermelho, que escapou da Alemanha e atacou Gotham, em um conchavo com o Coringa. O clima de união entre as editoras é tão grande que até os parceiros mirins são trocados, com o Capitão trabalhando com Robin e Bucky acompanhando o Cruzado dentro do veículo cheio de traquitanas internas.

O nostálgico caráter prossegue, com o plano megalomaníaco do Caveira revelado aos seus inimigos antes de ser plenamente executado. Toda a reconstrução pensada por Byrne é muito bem conduzida, mesmo que sua história não tenha qualquer compromisso com um subtexto mais profundo. Ao final, o encadernado ainda é capaz de demonstrar outras tantas pérolas, como a discussão ideológica entre Coringa e Caveira Vermelha; quando o segundo convida o Palhaço do Crime a se juntar ao terceiro Reich, logo ouve a resposta: “eu sou um insano criminoso americano” – numa referência clara a sua fidelidade à pátria, diferente e muito do que foi pensado por Jim Starlin em Morte em Família, cujo vilão torna-se embaixador do Irã. Claro, tudo isto é muito pautado na comédia.

Após uma explosão nuclear, os vilões chegam afinal ao seu tão esperado fim, o que prenuncia a nova exploração de conceito heroico que ocorreria lá pelos anos 60, com a evolução do atomic horror para o conceito de Stan Lee em fazer quadrinhos, com poderes de origens radioativas. Além deste conjunto de referências, ainda há um epílogo, sugerido por Roger Estern, em que o novo Batman (Dick Grayson) acha um esquife de gelo, que guarda o herói de guerra Steve Rogers, acordado após décadas de hibernação. O pensamento de Byrne em homenagear Jack Kirby, Bill Finger e Bob Kane é um exercício de singela beleza, além de ser uma homenagem extrema, e até inteligente, guardadas, é claro, as devidas proporções.