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Resenha | Batman - Morte da Família

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Batman - Morte da Familia

(História publicada em Batman #13 a #17, A Sobra do Batman #14 a 17 e Esquadrão Suicida #1)

Após a mega mini-saga Noite das Corujas, Scott Snyder prosseguiu no título principal do Homem-Morcego e consequentemente fez o esboço da saga posterior, que envolveria o arquirrival e gênese oficial do Cruzado Encapuzado além dos títulos acessórios de Batman. O Coringa, que estava um pouco apagado após a estreia de Detective Comics, voltaria em grande estilo ao crime e à vilania de Gotham.

A obra foi lançada após a edição número zero de Batman, cujas edições lançadas pela editora mostram histórias anteriores às apresentadas nos primeiros arcos do reboot, narrando os primeiros acontecimentos do retorno de Bruce Wayne à sua cidade natal quando infiltrado em meio à gangue do Capuz Vermelho. Ao final da edição, há uma reimaginação interessante da inspiração dos Robins Dick Grayson, Jason Todd e Tim Drake, mostrando um pouco a admiração que cada um teve pelo líder do Bat-Squad.

A ausência do Coringa é sentida por praticamente doze meses em todo o primeiro ano após o reboot, exceto pela já citada história de Tony Salvador Daniels. Não à toa, a retomada viria por meio da revista do personagem que ele aleijou anos antes. Morte da Família tem seu primeiro episódio em Batgirl 13 - com o lápis do brasileiro Ed Benes (especialista em desenhar mulheres de corpos esculturais) -, uma história curiosa por mexer com os brios da moça, já que Barbara Gordon sofreu o diabo com o Palhaço Infernal. O período em que Coringa estava em hiato era obviamente ligado à sua possível morte, uma vez que um vilão estava com o seu rosto, uma face dilacerada que depois é roubada por seu antigo dono.

O retorno triunfal do Bobo seria infectando toda a cidade, aterrorizando o Comissário Gordon, que, graças a esse fato, igualaria o seu comportamento ao de uma garotinha indefesa diante do maior apuro de sua vida inocente. A manipulação que o vilão exerce não influi somente nos cidadãos, mas também em alguns dos vilões de Gotham, especialmente nos estreitamente ligados ao bandido.

A tática consiste em atacar o Morcego em nível pessoal, com uma das primeiras ações consistindo no rapto de Alfred Pennyworth para desestabilizar Bruce Wayne e irritar "você sabe quem". É curioso como Coringa mostra saber a identidade secreta de Batman, mas não se importa com isso, não de um modo expositivo que demonstre uma vontade de contar a novidade ao mundo. É como se o cargo estivesse vazio, sem a mesma importância que qualquer outro membro da galeria de vilões daria ao descobrir, de fato, a identidade do Cruzado Encapuzado. Mas a circunstância não o impede de atacar seu rival. O golpe é baixo: exibir qual a contraparte do herói é irrelevante; a volúpia é por humilhar o paladino.

Os ataques prosseguem. James Gordon cai, vítima de uma hemorragia causada pela intoxicação do Gás do Riso. O plano de minar as emoções do herói esbarram no sangue frio e na decisão de atacar o Coringa de modo planejado, mas ainda assim o bombardeio prossegue, e de modo sério. Dois momentos mostram o quão sério e assertivo é o modus operandi do insano palhaço. Primeiro, quando ele e o Pinguim são comparados, demonstrando a diferença do pensamento anárquico, em cometer delitos, e o do crime organizado, mostrando que o primeiro é muito mais exitoso do que o outro; o segundo momento é a disposição do vilão em atacar um a um dos membros da família do Morcego, já que, para ele, não são segredos as suas identidades e as suas rotinas pessoais.

É uma pena que não haja uma unicidade de traços entre os desenhistas das revistas, que têm no visual do Coringa o avatar da incompetência. Alguns artistas dão um maior foco ao rosto disforme do personagem, enquanto outros tratam a sua face como algo semelhante a uma máscara de látex, o que diminui, e muito, o impacto que teriam as atitudes loucas do idealizador daquele estratagema. Mas tal defeito não consegue encobrir a principal qualidade de Coringa enquanto vilão, que é a imprevisibilidade. O palhaço, que mostra uma nova loucura sempre que aparece, relembra os bons momentos de Grant Morrison à frente do número - mais uma vez Snyder bebe da fonte deixada pelo roteirista escocês.

Uma das histórias paralelas que mais atraem a atenção do leitor é o tie-in presente em Asa Noturna (Nightwing), com roteiro de Kyle Higgins e desenhos do brasileiro Eddie Barrows. Dick Grayson começa a namorar uma moça que mais tarde revela ser filha de Tony Zucco, o que reabre algumas feridas internas, escondidas após anos de vigilantismo, mas que ainda marcam a vida do primeiro parceiro-mirim do Morcego. O ataque do Coringa a ele é talvez o mais catastrófico das atitudes do vilão, pois ceifa as esperanças do ex-acrobata e prenuncia a sua mudança de atitude num futuro próximo.

Batman se sente acuado. O vilão conseguiu tocar a psiquê do Cruzado. O megalomaníaco plano visa desmoralizar o guardião de Gotham. A tensão presente nas histórias contém muito mais elementos interessantes que os momentos pregressos, talvez por Snyder estar um pouco mais à vontade à frente do título. Por incrível que pareça, seus méritos não são todos fundamentados no gigantesco carisma do Coringa. As ações registradas são justificadas pela óbvia loucura e fazem sentido dentro do microuniverso da Bat-família.

É notório que as decisões em relação ao Palhaço do Crime passem muito pelo estilo diferente do personagem, primeiro com a decisão da retirada do seu rosto, pondo-o numa posição mais grotesca de sua história, mas também exagerando nas características da loucura. O que não pode ser associado à repetição da fórmula é o modo como o vilão trata os personagens acessórios, tocando de modo pessoal na rotina dos aliados do Morcego, especialmente em relação a Bartgirl (Barbara Gordon) e Asa Noturna, abalando, direta e indiretamente, a confiança dos dois em Batman.

A conclusão da saga, presente em Batman 17, mostra toda a Bat-família capturada pelo Coringa, todos diante de uma mesa, em uma referência obscura à família de canibais de Massacre da Serra Elétrica, de Tobe Hooper. Todo o plano arquitetado e posto em prática vai bem, até esbarrar na decisão final, no modo como o Morcego resolve os mistérios e vence seu adversário, jogando com ele em um campo onde jamais gostaria de entrar.

O Batman blefa, usa as mesmas artimanhas que seu inimigo, e isto até poderia ser uma boa saída, mas o modo como ela é construída é bastante preguiçosa, tendo muitos casos semelhantes em toda a trajetória do personagem. Durante setenta e cinco anos, o Morcego já usou artifícios semelhantes de enganação. Até mesmo no final de Batman Eternamente o modo como o Bat-Val Kilmer vence o Duas Caras de Tommy Lee Jones é muito semelhante ao caderno que contém a malfadada "identidade real" do Palhaço. A questão poderia ter sido melhor pensada, até pela pompa que a saga ganhou com o passar do tempo. A explicação que Bruce dá por não ter assassinado seu nêmese chega a ser plausível, e, aliada à separação do Bat-Squad, quase fez com que as soluções fáceis de Snyder fossem toleráveis. Contudo, elas não apagam o gosto ruim que fica após saborear o desfecho de Morte da Família, apesar dessa história ser muito mais bem urdida que as sagas anteriores.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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